VACA....!!!!!!

Por Publicado em:03/10/2020 | Atualizado em:02/10/2020 357

A zuluzada estava em festa naquela ensolarada tarde de domingo. A turma havia ganhado no dia anterior o campeonato de futebol de salão, num jogo duro contra o forte time da Universidade de Itaúna por dois a um, com um gol do Xandoca no finalzinho do jogo. Naquela noite de sábado a quadra da Escola Normal ficou pequena em função do número de torcedores que compareceram para assistir o grande jogo. E o time da Escola de Samba do Clube dos Zulus, formado pelo Escurinho no gol, Wolber e Ronaldo Passarinho na zaga e Ricardo Pão Véio e Xandoca no ataque, jogou melhor e levou o caneco. No time da Universidade, o lateral Chaal Chequer, estudante do curso de Direito, foi um leão na defesa e impediu um placar mais dilatado a favor do time preto e amarelo.
Naquela tarde de domingo a zuluzada, reunida em um sítio lá pras bandas do Brejo Alegre, comemorava o título com um suculento churrasco regado a muita cerveja. E o dia foi passando, passando com muita conversa, causus e, principalmente, comentários dos principais lances do emocionante jogo do dia anterior, quando o pessoal começou a se despedir para voltar para Itaúna. Eufórico, o Ricardo Pinta, treinador da equipe campeã, juntamente com o Lacel, Moacir Porão, Virgilinho Cocó, Luciano Piranha, Sérgio Tarefa, Dinart e Imar, disputavam uma acirrada partida de truco e foram ficando para trás, juntamente com outros companheiros.
- “Não tem problema não, pessoal!” - avisava o Ricardo Pinta, entre um e outro gole de cuba – “O meu carro é grande e cabe folgado umas sete pessoas. Vamos terminar o jogo que depois eu levo todos para a cidade”.
Realmente o velho Buick/53 do Pinta, mais conhecido como “Rocinante”, cabia muita gente e era comum nos passeios, pescarias e nas esticadas de fins de semana no Bar do Maurino, na Cachoeira dos Chaves e, principalmente, nas casas de rapariga da zona boêmia nas frias madrugadas de sexta e sábado, o velho Rocinante ser ocupado por seis, sete e até oito marmanjos, afoitos por uma diversão. Naquela tarde de domingo não seria diferente e, após a partida de truco, com o pessoal mais prá lá do que prá cá, após dezenas de gélidas cervejas, cubas e saborosos rabos de galo, o pessoal se ajeitou como pôde no velho Buick e o Ricardo Pinta pisou fundo rumo a Itaúna. Tinham pressa para chegar pois, à noite, a tradicional hora dançante do Automóvel Clube era a pedida do dia, para encerrar mais um fim de semana naquela então bucólica Itaúna dos anos sessenta. Atrás ia o jipe do Xandoca com o Camêlo, Márcio Timbuca, Julinho Fugueteiro, Muranguinho e Ronaldo Passarinho. Com o pé pesado no acelerador, o possante Rocinante serpenteava pela estreita e empoeirada estradinha de terra, quando, próximo a uma curva, surgiu ziguezagueando um velho fusquinha bege com uma mulher em sua direção.
- “Encosta, Pinta” – gritou aflito o Moacir Porão – “que o motorista deve tá muito tonto e vai bater no seu carro!”. Mais do que depressa o velho Buik, já freando, passou para o estreito acostamento, enquanto, surpresos, viram uma descabelada mulher de uns trinta e poucos anos passar rente ao Buik com a cabeça para fora e esbravejar: “Vaaaaaaca!!!!”
- “Éguaaaaa!!!” – retrucaram quase em coro os ocupantes do Buicão.
- “Que mulher mais atrevida!” – exclamou o Lacel. – “Só pode estar muita bêbada e se achando dona da estrada” – complementou o Imar. Ainda assustados com a atitude e o atrevimento da motorista do fusquinha, o Ricardo Pinta, já meio nervoso pelo susto que havia passado, pisou fundo no acelerador e o velho Buicão de mais de dois mil quilos arrancou rumo à curva de terra batida a mais de 80 por hora quando, no início de uma sinuosa curva, deparou com uma vaca nelore, de 30 ou mais arrobas, paradinha, paradinha no meio da estrada.
Dizem que naquela noite muitas mocinhas sentiram a ausência de uma turminha de assíduos frequentadores das horas dançantes do Automóvel Clube, que naquele momento estavam no Hospital recebendo muito mercúrio cromo, esparadrapos e curativos pelo corpo, apesar das risaiadas e algazarras que eles aprontavam no velho Hospital do Manoelzinho...

Avalie este item
(0 votos)
Última modificação em Sexta, 02 Outubro 2020 17:31

Compartilhe esta notícia


Warning: preg_match(): Unknown modifier '/' in /home/storage/d/52/6b/folhapovoitauna1/public_html/plugins/system/cache/cache.php on line 217