Mui amigo....

Por Publicado em:07/01/2022 | Atualizado em:29/11/-0001 305

Marcelão! Hoje nós vamos rebocar este muro de fora a fora e não quero que falte massa de cimento hora nenhuma, viu? Vamos pegar pesado, pois temos de terminar este serviço ainda hoje, pois amanhã tem obra nova em uma casa lá no Cerqueira Lima e é serviço pra mais de vinte dias. Vê se não se atrapalha e faz as massas com as dosagens de cimento, areia e água do jeito que eu gosto, e não sai por aí derrubando nada não, viu? - Explicava o Pedro, para o seu fiel servente de pedreiro.

Companheiro de vários anos de trabalho duro de segunda a sexta, mas que nos fins de semana, acompanhados de outros amigos, se esbaldavam jogando futebol, campeonatos de truco e de sinuca, sempre regados com dúzias e mais dúzias de cervejas geladas e um ou outro gole da branquinha, lá no Bar do Irineu no Bairro Morro do Sol. Eram amigos mesmo, e foi por acaso que se conheceram, pois moravam em bairros diferentes. Apresentado por um conhecido, o Pedro, pedreiro experiente, resolveu dar uma chance ao jovem Marcelo, que estava há um bom tempo procurando serviço. Sem qualquer qualificação, mas com um físico avantajado e com quase um metro e oitenta, o calejado pedreiro viu no jovem à sua frente o perfil ideal para trabalhar na dura função de servente de pedreiro, cujas atividades principais eram carregar tijolos, sacos e mais sacos de cimento, latas de areia e brita. Vai encaixar direitinho nesta função, raciocinou o Pedro. Com este físico ele vai acabar fazendo o serviço de dois serventes. Apesar de bom de serviço, o novo funcionário era muito desajeitado e destrambelhado no dia a dia de trabalho, e quase sempre estava esbarrando e derrubando pilhas de tijolos, telhas e outros materiais. Com o seu enorme corpanzil, já na primeira semana de serviço ganhou o apelido de Marcelão, em função do seu avantajado porte físico.

- Cuidado, gente! Lá vem o trator do Marcelão - gritavam os companheiros quando ele, com o carrinho de mão cheio de tijolos, massa de reboque ou areia, disparava rampa abaixo todo esbaforido, para abastecer os pedreiros da obra. Dava conta do serviço e valia por dois, mas estava sempre provocando pequenos acidentes em sua volta, pois esbarrava em quase tudo por onde passava, arrastando apressado os seus mais de cento e poucos quilos.

No meio de uma semana ensolarada, a notícia correu de ponta a ponta no Bairro Morro do Sol: o Pedro pedreiro morreu. Caiu de um andaime de mais de quatro metros de altura enquanto rebocava as paredes de uma casa de dois andares lá no Bairro Padre Eustáquio. Querido por todos e muito prestativo e engajado em obras sociais do bairro, o velório seria concorrido e foi o que ocorreu, com o velório municipal lotado, num entra e sai de amigos e conhecidos de quase todos os bairros da cidade.
O velório já ia pela metade quando o Marcelão, servente de pedreiro do falecido, chegou. Desconhecido pela maioria dos membros da família do defunto, chorava copiosamente próximo ao caixão. Consternados, alguns familiares, acompanhados da viúva, se aproximaram e o indagaram:
- Era seu amigo, meu jovem?
- Era! – Exclamou, num choro compulsivo, o servente de pedreiro, com os seus cento e poucos quilos debruçados sobre o caixão.
- E ele gostava de você?
- Demais. Suas últimas palavras foram para mim, minha senhora.

Pega de surpresa pela afirmação daquele jovem desconhecido que transmitia tanta confiança, a viúva, antes acabrunhada e tristonha, se reascendeu e um fio de esperança pareceu deslumbrar em seu subconsciente entorpecido.
“Jesus, Maria, José”, pensou a viúva, “Será que nestas últimas palavras do meu finado esposo não está uma mensagem de conforto para mim, meus filhos ou para a minha família?”
- Ah, é? E quais foram as suas últimas palavras, meu jovem? – Indagou, já ansiosa, a viúva.
- Eu vinha descendo uma rampa próxima ao andaime, com o carrinho de mão abarrotado de massa de reboque para os pedreiros, quando o Sr. Pedro gritou bem alto lá de cima: pelo amor de Deus, Marcelão, não esbarre no andaime, não esbarre no andaaaaaaaaaaaaime!...............

Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Avalie este item
(0 votos)

Compartilhe esta notícia

Sérgio Tarefa

E-mail de contato: sergionogueira.rh@gmail.com