O coice

Por Publicado em:04/10/2019 | Atualizado em:04/10/2019 200

- “Cilico, ocê sabe quais são as seis coisas mais perigosas do mundo?”. Era um fim de tarde de sexta-feira e a Pastelaria do Cilico, em plena Praça da Matriz, estava arroiada até à tampa, com dezenas e dezenas de clientes espalhados entre as mesas, bebendo cerveja, rabo de galo e saboreando os deliciosos pasteis, que só o proprietário do estabelecimento comercial sabia preparar. O vozeirão daquela figura de mais de um metro e oitenta, ombros largos e cabelos cuidadosamente penteados, desviou o olhar de todos para o recém-chegados, encostada no balcão.  

- “Ocês não sabem não, não é?”. - Questionou em voz alta ao mesmo tempo em que encarava os clientes do bar. 

- “Pois bem, as seis coisas mais perigosas no mundo são: 

- “Jogo, cachaça e briga, porta de venda, pão com salame e casa de rapariga”. Voltou a exclamar ao mesmo tempo em que abria um sorriso escancarado para os presentes. 

Com bota surrada tipo meio cano, suja de barro, calça jeans desbotada e camisa vermelha aberta, meio peito, ele tinha entrado na pastelaria do amigo poucos minutos antes, naquele horário repleto de clientes, e foi soltando a voz para o proprietário do estabelecimento comercial. “Solta uma cerveja bem gelada, Sr. Cilico, e um copo lagoinha, que hoje eu trabalhei demais! Ah! se trabalhei!” 

Assim era o Jovenildo, amigo e conhecido de todos. Começou ajudando o Jofre a descornar novilhos e posteriormente passou a ferrar cavalos em sítios e fazendas de Itaúna e cidades vizinhas e se tornou uma assumidade no assunto. Trabalhador, não tinha hora nem dia. Era só chamar, que em pouco tempo, dirigindo a sua possante camionete, lá estava ele acompanhado dos seus ajudantes colocando ferraduras em mulas, jumentos, éguas e cavalos de toda a região do Oeste de Minas  

Com uma grande roda de amigos de todos os níveis sociais, tinha porta aberta nos principais ambientes da cidade, como o União Operária, Automóvel Clube, Clube da Fábrica, Flor do Momo e Grêmio de Santanense, bem como nas casas de tolerância da Jane, Sissi, Edgarzinho e Cantinho do Céu, na Zona Boêmia, onde era muito bem recebido. Numa quarta-feira à tarde a notícia correu como um rastilho de pólvora por toda a cidade: o Jovenildo morreu. Estava fazendo um serviço na Fazenda dos Parreiras, lá pros lados da localidade do Fundão, e tomou um coice de uma mula e veio a falecer. Conhecido e querido por todos, o velório varou a madrugada, abarrotado de amigos e curiosos. Retornando de uma viagem de negócios, o Medeirinhos só ficou sabendo da morte do amigo poucas horas antes do enterro, e do jeito que estava rumou para o velório. 

Ao chegar foi avistando uma roda de amigos formada pelo Wagner Parreiras, o Bira da Farmácia, Jeferson do Zé Rosa, Dreifus do Diriu, Ronaldo Nogueirinha, Mário Rosa e outros mais e, meio esbaforido, foi logo indagando: -“Foi enfarte?”. 

- “Que enfarte que nada, Medeiros!” – Exclamou o Wagner Parreiras - “Ele levou foi um coice de uma mula bem no meio da cabeça e não teve jeito, bateu as botas na hora.” 

- “Mas como isto foi acontecer, gente!? Um profissional tão experiente como ele.” 

- “O que eu sei”, explicou o Dreifus do Diriu, “é que ele estava no curral apartando um grupo de Mulas e alguma coisa assustou uma delas, que plantou um coice bem na cabeça do coitado do Jovenildo.” 

- “E ela tava ferrada?!” – Quis saber o curioso Medeirinhos. 

- “Que nada!”. Explicou o Bira da Farmácia. “Pelo que eu sei, era uma mula nova de dois anos e pouco, que ainda não tinha sido domada e nem ferrada. E uma gargalhada explodiu naquele pequeno grupo de amigos em pleno velório do Jovenildo, quando o Medeirinhos, balançando a cabeça, exclamou em voz alta: “Nossa! Que sorte que ele deu, heim”...

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Última modificação em Sexta, 04 Outubro 2019 18:38

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