Pãozinho de Sal

Por Publicado em:31/10/2019 | Atualizado em:31/10/2019 252

Nascido e criado no Bairro da Várzea do Olaria, o Godofredo ou Godofredinho, como era mais conhecido por todos, cresceu em meio à produção de telhas e tijolos, num misto de cerâmica e olaria do velho pai. Desde pequeno tomou gosto pelo negócio e em pouco tempo se transformou no maior produtor, principalmente de tijolos, da região. Ótimo gestor, cortou custos, treinou a equipe e implementou novos processos de produção na antiga e arcaica olaria que herdou do pai e a transformou em um lucrativo negócio. Em função dos negócios, vivia viajando, visitando clientes ou mesmo participando de feiras à procura de novidades. Casado, sem filhos, mas eterno mulherengo, não podia ver um rabo de saia que se alvoraçava.

Quando solteiro, era assíduo frequentador da zona boêmia com comentadas farras nas casas de rapariga do alto do Morro do Rosário. Agora casado, dava suas escapulidas nas viagens de negócio, onde sempre reservava um tempinho para as suas conquistas amorosas. Mas foi mesmo em Itaúna que o seu coração bateu acelerado quando, ao levar um funcionário que se acidentou ao Hospital Manoel Gonçalves, viu aquela formosura trajando roupa e sapatos brancos atendendo de um lado para o outro os pacientes na recepção. Foi paixão à primeira vista e, mesmo despistando, ele não sossegou até conseguir um encontro com aquela formosura de mulher.

Atendente de enfermagem no Hospital do Manoelzinho, a Cleidenisse resistiu nas primeiras investidas pelo fato dele ser casado, mas no final acabou cedendo às cantadas do galã da Várzea do Olaria, em função dos presentes, flores e outros mimos que recebia quase que diariamente. Vendo uma oportunidade para se arrumar na vida e sair daquele serviço desgastante do dia a dia no hospital, acabou caindo nos braços do insaciável Godofredinho. E foram noites e mais noites de mexe-mexe, rola-rola de orgia num desejo quase insaciável no Motel do Anael, até o dia em que ela lhe deu a bombástica notícia: estou grávida. Após se refazer do susto, o empresário de telhas e tijolos, ainda perdido de amores pela bela atendente de enfermagem, arranjou uma solução: - “Você vai para Belo Horizonte e com esta carta procure um amigo na Santa Casa de lá, que ele vai te arrumar um emprego. Vou alugar um apartamento para você morar e vou te dar todo o apoio para que você tenha tranquilamente o nosso filho!” - Exclamou aliviado para a apreensiva atendente de enfermagem. E neste período vamos nos falar o mínimo necessário para não levantar desconfiança. “Pode ficar tranquila!”. Reafirmou o empresário. “Vou te dar todo o apoio e quando o bebê nascer vamos morar juntos.

Faz o seguinte: quando o garoto nascer você só me manda um telegrama com os seguintes dizeres: um pãozinho de Sal! Não coloque mais nada nem mesmo o seu nome, tá bem? Você entendeu direitinho? Então, quando o bebê nascer você vai me mandar um telegrama dizendo: um pãozinho de sal, mais nadinha, nadinha, viu? Pois este povo daqui da Várzea é muito futriqueiro, fofoqueiro e bisbilhoteiro”. Acordo feito, a bela Cleidenisse em pouco tempo já atendia na Santa Casa de Belo Horizonte e morava em um belo apartamento de dois quartos no Bairro Santa Efigênia, próximo ao hospital, e mantinha raros contatos com o empresário itaunense. E os meses foram passando, passando... quando, numa bela manhã de sábado, enquanto tomava o café da manhã ao lado da esposa, foi informado pela empregada que tinha chegado um telegrama para ele.
Ainda sentado na mesa de café abriu rapidamente o telegrama, deu uma lida, bambeou lentamente os braços, virou levemente a cabeça para um dos lados e desmaiou. Apavorada a esposa, temendo um enfarte ou um mal súbito, ligou rapidamente para o hospital, que encaminhou uma ambulância, que ao chegar os seus ocupantes foram logo arguindo a esposa para saber o que tinha ocorrido.

- “Não sei não!” – Exclamou a esposa – “Estava tudo bem. Como fazemos todas as manhãs de sábado, nós estávamos tomando café, quando ele desmaiou ao ler este telegrama que acabou de chegar”.
- “O que diz o telegrama?” – Quis saber o chefe da equipe de enfermagem.

- “Não sei! Não entendi nadinha, nadinha do que está escrito. Parece alguma coisa sem pé, sem cabeça, dê uma olhadinha, por favor!” - Exclamou a esposa com os olhos arregalados.

Com o telegrama em mãos o enfermeiro chefe leu em voz alta a mensagem recebida pelo galã da Várzea do Olaria: “Cinco pãezinhos de sal!... Três com linguiça”...

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Última modificação em Quinta, 31 Outubro 2019 18:55

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