O taradão da meia noite

Por Publicado em:10/01/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 52

Todos os meses, o mesmo zum, zum, zum corria solto de boca em boca pela cidade. O Taradão da Meia-Noite voltou a atacar. “Foi na noite passada” - comentavam uns. Passava um pouco da meia-noite quando um cidadão chegou apavorado na delegacia de polícia informando que um homem com um capuz sobre a cabeça, luvas e um afiado facão em uma das mãos o agarrou na descida da Rua Gonçalves da Guia, gritando: “Ou dá ou morre!” – comentavam outros. Era início dos anos sessenta e a pacata cidade de Itaúna, com pouco mais de cinquenta e poucos mil habitantes e um pequeno aparato policial, convivia com este problema gravíssimo. Vira e mexe um homem, em geral bêbado, era atacado por um tarado ainda não identificado com o seu tradicional grito de guerra: “Ou dá ou morre”, tendo êxito em praticamente 100% de suas investidas.
Alguns procuravam a polícia, mas a grande maioria ficava calada, receosa dos comentários maldosos do povão. Não queria ser apontada na rua como uma das vítimas do Taradão da Meia-Noite.

- “Cuidado, hei n Osvaldinho!” - sugeriam os amigos em uma roda de cerveja no Bar do Sandoval, na Lagoinha. – “Você vive tomando estes porres por aí e qualquer dia destes você pode se transformar em mais uma vítima do taradão, viu!?”.
- “Que isto pessoal! Vocês sabem que eu nasci e fui criado na Rua da Ponte, né! Terra do Mário Coqueiro, do Braguinha, Didi e outros mais... Deixa ele vir que ele vai ver o que é bom pra tosse. Comigo não tem disto não! Deixa ele vir que, além de desmascará-lo, pego-o pelo colarinho e o levo direto pro Dr. Delegado”. E assim os meses foram passando e o Taradão da Meia Noite continuava a atacar os homens bêbados por todos os cantos da cidade. Vinham relatos de vítimas de todos os bairros da cidade, como Garcias, Vila Mozart, Santanense, Várzea da Olaria, Cerrado, Rua da Ponte, e a descrição era sempre a mesma: um homem alto e forte com um capuz preto sobre a cabeça, luvas e um afiado facão em uma das mãos, com o tradicional grito de guerra: “Ou dá ou morre”. A polícia, com um pequeno efetivo formado pelo delegado Tião Secreta, um sargento, um cabo e pouco mais de seis praças, fazia o que podia, em vão, para cobrir todos os bairros da cidade. Os bares começaram a ficar vazios no início da madrugada, os homens começaram a andar em grupos para se protegerem e a zona boêmia ficou às moscas a partir da meia-noite.
- “Assim eu vou ter de mudar de profissão!” – exclamava, aflita, uma balzaquiana de uma das casas de rapariga da Zona Boêmia.

- “Este mês eu não faturei quase nada com este taradão comendo quase todos os homens bêbados da cidade”.
- “Se ele vier sem o seu facão, eu até arrisco ficar com ele!” - exclamava entre risos aflitos uma loirinha magrinha que aparentava ter pouco mais de vinte anos.
Num domingo, pela manhã, a notícia chegou para os amigos do Osvaldinho, reunidos em volta de um dos banquinhos da Praça da Matriz: nesta madrugada o Osvaldinho foi parar lá no Hospital do Manoelzinho.

- “Será que ele foi atacado pelo Taradão da Meia-Noite?!” – exclamaram. Na dúvida, alguns foram até à casa do Osvaldinho para saber notícias e o encontraram tomando uma latinha de cerveja na varanda da casa e com uma cara de poucos amigos.

- “Bem, pessoal! Pro cês eu posso abrir o jogo. O homem me atacou perto do Colégio Sant’Ana, bem atrás do União Operária. Devia ser quase uma hora da madrugada e eu tinha acabado de sair do Bar do Sissi e ia lá pro Sandoval tomar a saideira, quando um mascarado pulou na minha frente com um facão deste tamanho na mão. Ele passou o facão nos paralelepípedos que clareou quase toda a pracinha do colégio, como se fosse dia, e deu um berro: ‘Ou dá ou morre’. Vocês conhecem o meu estilo, né? Eu não corri e entrei em luta corporal com o mascarado. Mas como eu estava muito bêbado e ele era muito forte, desequilibrei e caí junto ao meio-fio e ele pulou em cima de mim, encostou o facão no meu pescoço e mandou eu baixar as calças...” - finalizou cabisbaixo o Osvaldinho.
- “E aí?” – quiseram saber os curiosos amigos.

- “Aí, ao encostar o facão amoladinho no meu pescoço, ele sussurrou: ‘Ou dá ou morre’”.
- “E o que aconteceu?” – quiseram saber os cinco amigos a sua volta, ávidos por uma resposta.
Cabisbaixo, o valentão da Rua da Ponte, com a cara mais deslambida, exclamou baixinho: - “Aí eu morri, uai!...”.

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