Dr. Juza Benze Tudo

Por Publicado em:31/07/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 75

No final dos anos 50, no período de novembro a fevereiro, chovia muito em Itaúna e na região e um dos bairros mais afetados era o da Várzea do Olaria, onde o córrego da Joanica, hoje mais conhecido como córrego da Várzea, cuja calha estreita para comportar o volume de água da chuva, transbordava e inundava todo o bairro, formando um lamaçal e dificultando ou até impedindo a locomoção dos seus moradores. Na época não existiam pontes sobre o córrego, só pinguelas de pau roliço ou toras de pé de coco Macaúba que permitiam a passagem de uma só pessoa por vez. Se bobeasse tava n’água para nunca mais ser visto. Para chegar ao centro da cidade só a cavalo, ou então, pegando a jardineira dos Lara na rodovia de saibro batido cheia de costeletas, que fazia a viagem duas vezes por dia, uma pela manhã e a outra à tarde entre Itaúna e Belo Horizonte. Era uma viagem demorada que levava mais de três horas passando por dentro de Azurita, Mateus Leme, Juatuba, Vianópolis e Betim. Neste período chuvoso era comum ver carros e caminhões com correntes nas rodas e, mesmo assim, atolados no tijuco. Foi nesta época que chegou no Bairro da Várzea um jovem sitiante, vindo lá das bandas da Cafuringa do Morro Grande trazido pela jardineira dos Lara. Veio à procura de parentes em função de estar acometido há vários dias de fortes dores nas costas e febre alta, que dificultavam a sua locomoção e lhe provocavam dores intensas dia e noite.
-“Já procurei por vários benzedores da região e nada!” – Explicava o sitiante para os atentos parentes.

- “Uns falaram que era olho gordo, inveja das coisas que eu tenho. Outros que era problema de coluna em função da lida diária dos afazeres do sítio como: ordenhar as vacas, capinar, roçar pastos, limpar curral, dar trato às criações de porcos e galinhas, etc, etc.”
- “Teve gente que até afirmou que eu não ia passar desta e que era melhor eu já indo providenciar o meu lote lá no cemitério de Azurita.”

- “Benzeram daqui, benzeram dali e nada da dor passar. Por isso eu vim para Itaúna, pois fiquei sabendo que lá no hospital tem um tal de Dr. Dorinato que é tiro e queda, resolve qualquer problema de saúde e na hora.”.
- “Mas não tem como chegar no hospital com este barreiro que está por aí, sô! Que eu saiba, com este problema nas costas, a cavalo ocê não consegue ir, né? Vamos ter que esperar alguns dias até a chuva passar.”

E os dias foram passando, a dor só aumentando e eles até acionaram, através de amigos, os boticários da época: Sr. Alfredo, Sr. Ari e Sr. Ovídio Lima, mas os farmacêuticos não tinham como chegar até à Várzea para atender o pobre sitiante. Numa das tentativas o Chico do Vito, com o seu possante taxi GM 1.939, tentou, mas ficou atolado até nos eixos, próximo à casa do Tião Rezende lá na Várzea e nem com a ajuda de quatro juntas de bois do Zeca da Amélia conseguiram tirá-lo de lá.
- “Gente! Eu acho que o Juza Benze Tudo pode resolver o problema deste moço!” -Exclamou um dos moradores do Bairro.

- “Ele já resolveu tantos problemas de saúde do povo daqui! Ocês não se lembram?” -Voltou a exclamar, enquanto se acomodava numa confortável cadeira de balanço, na espaçosa varanda da casa dos parentes do sitiante.
Ainda não eram oito horas da noite quando o benzedor chegou, debaixo de uma forte chuva. Aparentando ter uns sessenta e poucos anos, trajando uma roupa limpa, mas bem desgastada, arrastando um chinelo de borracha de pneu entre os dedos, e ostentando um velho cachimbo de chifre de boi pendurado no canto da boca desdentada e murcha. Sem sequer cumprimentar os presentes, foi direto para o quarto onde, sem camisa, o sitiante gemia deitado de bruços sobre a cama. Cercado por um grupo de curiosos observou atentamente as costas do enfermo onde um forte inchaço e um vermelhão escuro se destacava em contraste com a sua pele clara.

Inicialmente destampou uma lamparina que estava sobre a mesa e despejou um pouco do seu conteúdo de óleo de mamona morno sobre a parte mais avermelhada e fez uma leve massagem, apesar dos berros de dor do paciente. Em seguida aspirou forte o velho cachimbo e assoprou aquela fumaça esbranquiçada sobre o dorso e a cabeça do sitiante, quando o zum, zum, zuns e os fuxicos entre os presentes começaram.
- “É muita coragem deste povo entregar a vida de uma pessoa tão jovem para este feiticeiro e macumbeiro desclassificado que se passa por benzedor” - cochichavam uns.

- “Eh! – Isto é doença braba. Podem tratar de levá-lo para o hospital que só o Dr. Dorinato é capaz de salvá-lo” - cochichavam outros, enquanto o Benzedor, em silêncio, continuava com o seu ritual.
Atendendo a seu pedido lhe passaram um tição em brasa recém saído do fogão de lenha que foi colocado há alguns centímetros da parte mais escura do inchaço das costas e com os beiços aflorados foi soprando a fumaça do velho cachimbo sobre o local mais afetado. O calor provocado pelo sopro no tição em brasa fez com que alguma coisa se movimentasse na parte mais escura do vermelhão das costas do sitiante e, sob as suas ordens, dois dos presentes seguraram com firmeza os braços do enfermo, ao mesmo tempo que o benzedor, com o velho cachimbo ainda preso no canto da boca, fazia uma forte pressão com as mãos , espremendo com força o local entumecido, frente a um urro de dor do pobre sitiante.

Com os olhos arregalados os incrédulos presentes em volta da cama viram surgindo sob o local espremido uma coisa esquisita, parecendo uma ponta de sabugo de milho seco, peluda e feia.
- “Mas é um Berne!” – “Gritaram eufóricos e ao mesmo tempo surpresos, os presentes em volta da cama.

E o bicho peludo de uns sete centímetros de comprimento, daqueles que gostam de se instalar em lombo de boi, foi colocado sobre o lençol encardido, ainda se remexendo.
Meio ao alvoroço alguém gritou: “- viva o Dr. Juza Benze Tudo!”. Enquanto, já aliviado das dores, o sitiante se acomodava em um pequeno banco de madeira ao lado da cama, sorvendo de uma só vez um copo duplo de cachaça, curtida em erva de arnica verde...

Obs. Este causus foi relatado por um leitor da FOLHA, Sr. Orlando Resende, morador do bairro Várzea do Olaria.

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