O FIO DA NAVALHA

Por Publicado em:20/04/2019 | Atualizado em:29/11/-0001 104

William Somerset Maugham

Comprei este livro por volta de 1989 e a edição que tenho é de 1986. Sempre fui inclinado a lê-lo, peguei-o por várias vezes, mas nunca animava a passar do primeiro capítulo, que li algumas vezes. Os anos se passaram e somente agora quebrei a barreira invisível que me impedia de fazer a leitura por completo. Não é a única obra desse autor que tenho, não tendo, porém, lido nenhuma outra, digo isso para ficar claro que apesar de ter a certeza de estar diante de um excepcional escritor, sempre que podia, comprava as obras que iam sendo publicadas na esperança de algum dia romper o véu que nos separava. Talvez isso seja a maturidade ou o abandono da preguiça. Não sei, só sei que esta obra foge ao comum do autor e a crítica não foi muito amiga, porque o achava um escritor sem muita significância. É óbvio que o reconhecimento veio tardio, o que não se deu com a crítica literária de sua época, foi compensado pelo público que ama o jeito quase coloquial de narrar com simplicidade a vida de seus personagens.
Esse livro foi escrito em 1944, quando ainda a segunda guerra desenrolava na Europa e talvez por isso tenha causado tanta estupefação, isso porque o personagem central é retratado como alguém que volta da primeira guerra mundial, desiludido com o que vira e presenciara nas trincheiras, estando disposto a dar as costas ao mundo que conhecia e seguir para o oriente em busca de paz e sentido para a vida. De fato a guerra transformara por completo Larry e agora ele passara a ser uma pessoa de poucas palavras, era mais contemplativo, muito reservado e tinha um sorriso encantador, porém, enigmático.

O autor Maugham é também o personagem/narrador e trava com o leitor diálogos à medida que conta seus encontros com Larry, Isabel e Gray, um triângulo amoroso e mal resolvido. Mas não me entenda mal, é que Isabel está perdidamente apaixonada por Larry e Gray por ela, mas Gray é amigo de longa data de Larry, daí sempre como um cavalheiro, se mantém à distância, a contragosto de Elliot, tio de Isabel. Já para a mãe de Isabel, a senhora Bradley, o namoro da filha é pura perda de tempo, porque o certo seria que ela se casasse com o rico e bem sucedido Gray, o melhor partido de Nova Iorque e que, apesar da discrição, deixara evidente para todos que babava por Isabel.

Maugham conhece Elliot e passa a ser convidado para os sarais patrocinados por ele. Elliot era um homem bem sucedido, os primeiros anos foram de muita humilhação, mas sua “finesse” foi premiada, porque tinha excelente visão para os quadros e tinha amealhando uma quantia significativa de obras originais de pintores já afamados ou em ascensão, assim, acabou por fazer uma pequena fortuna e um bom círculo de amizades. Fixara-se em Paris e achava insuportável qualquer outro lugar, para ele, Londres servia apenas para negócios, mas nada se comparava à cidade das luzes e do amor. Assim falando parece que estamos diante de um pedante almofadinha, mas prefiro ficar com o testemunho que lhe dá o autor, quando diz: “Se dei ao leitor a impressão de que Elliot Templeton era um tipo desprezível, cometi uma injustiça.” Porque ele era o que dizem os franceses, um serviable, palavra sem correspondente em língua inglesa, mas que pode ser traduzido por obsequioso, amável ou prestadio. Contudo, ele era mesmo generoso.

Isabel quer achar meios e momento para fazer com que Larry se decida a trabalhar e então levá-la ao altar, e, pressionada, resolve que vai expor-lhe suas aflições e saber se de fato ele pretende assentar-se, porque desde que chegou do “front” ele não buscou uma ocupação. Gray assegurou-lhe um cargo na empresa, mas Larry se mantinha reticente. Impulsionada pela necessidade de uma decisão, ela pergunta o que ele pretende. Larry calmamente diz a Isabel que não vai aceitar o emprego oferecido pelo amigo, porque pretende ficar em Paris por pelo menos dois anos. Amargurada, ela se resigna e aceita esperá-lo, não, porém, sem perguntar-lhe: “O que você vai fazer em Paris?”. Com a maior desenvoltura e naturalidade ele responde: “Vadiar”.

A simplicidade dessa obra, a interlocução do narrador com o leitor, a proposta franca e inusitada do protagonista, e os eventos históricos no qual os personagens estão inseridos fazem deste livro um oráculo. E o sentimento que fica é de que o tempo todo se está, n’O FIO DA NAVALHA.

Avalie este item
(0 votos)

Compartilhe esta notícia

Mais recentes de Cláudio Lysias