O Orfanato da Dona Cota. Hoje, uma incógnita!

Por Publicado em:26/11/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 110

Como apaixonados por Itaúna, estamos sempre abordando temas que envolvem o patrimônio do itaunense, o construído e o deixado ao povo. Somos vigilantes e fazemos parte de um pequeno grupo que se preocupa com esse tipo de assunto e dispende tempo para observar e/ou trabalhar em prol da manutenção destes bens dos itaunenses, construídos pelo poder público com recursos do próprio povo ou deixados a ele por itaunenses milionários e desprendidos, que poderiam ter escolhido familiares como herdeiros, mas preferiram o povo. Todos sabem que estamos falando do casal formando por Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, o Manoelzinho, e Maria Gonçalves de Sousa, a Dona Cota. E não vamos repetir a história do legado, a decisão testamental, mas, mais uma vez, vamos chamar a atenção para os problemas de dilapidação do patrimônio doado aos itaunenses pelo casal e que, dentre muitas vertentes, tem como principal a Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, popularmente conhecida como Hospital, e a Fundação São Vicente de Paulo, popularmente conhecida como Orfanato.
Se nas últimas semanas o tema foi o Hospital, por causa da eleição de nova provedoria, tema que parece esgotado momentaneamente por causa do bom senso dos envolvidos, temos agora um novo tema, e diríamos até uma nova empreitada, que envolve a Fundação São Vicente de Paulo, mantenedora do Orfanato. As informações, ainda não checadas totalmente, pois dependemos de acesso a alguns documentos, nos levam a crer que há problemas de ordem administrativa, com decisões unilaterais e que podem estar e/ou vão prejudicar a instituição no futuro. Não vamos neste momento fazer acusações e ou levantar dúvidas contra ninguém e muito menos criticar os gestores atuais, mas é preciso voltar as atenções para a instituição e cobrar esclarecimentos, primeiramente, em relação às mudanças estatutárias levadas a efeito nos últimos meses e, depois, sobre as decisões administrativas em relação ao patrimônio dos itaunenses. Não estamos e nem vamos colocar em dúvida a credibilidade dos administradores atuais, mas é preciso mais visibilidade nos atos administrativos e na prestação de contas. Como sempre, repetimos: o patrimônio é dos itaunenses. Foi doado ao povo.

De antemão, sabemos que a diretoria vai responder com a seguinte afirmação: a fiscalização é de responsabilidade do Ministério Público e estamos prestando contas ao promotor responsável. Está correto, mas o promotor é um fiscal, é quem tem que estar a par de tudo mesmo. Mas ele é apenas o fiscal da Fundação, e quem tem que concordar ou não com a gestão e/ou modificações estatutárias é o Conselho. E se esse Conselho aprova ações e prestações de contas e o fiscal da Fundação, no caso o promotor, não concorda, aí, sim, ele pode propor ação judicial contra os atos e contra a anuência do Conselho. Mas uma coisa é certa, e em nossa opinião está acima de qualquer posicionamento do Conselho e da promotoria: é o direito do itaunense de ter conhecimento dos atos da diretoria da Fundação, pois o patrimônio é dele e ele tem o direito de saber tudo sobre o dia a dia da entidade, como quais os serviços prestados hoje, quais os imóveis estão alugados e qual o valor desses aluguéis mensamente, como esse dinheiro está sendo usado e, se após os gastos administrativos, está sobrando recursos e como o mesmo está sendo aplicado. E, além disso, é necessário que essas prestações de contas sejam amplamente divulgadas em jornais e redes sociais. Repetimos: o patrimônio é do povo. Não é uma questão de desconfiança, mas, sim, entendimento de que o patrimônio é do itaunense e todos têm o direito de saber como está sendo administrado, assim como têm o direito de saber como os recursos oriundos desse patrimônio estão sendo utilizados.
No passado, décadas de 30, 40 e 50 do século passado, conforme registros de jornais que circulavam na segunda metade do século e relatos de historiadores e itaunenses conhecedores da história do município a este articulista, os patrimônios deixados ao povo pelo casal Manoel Gonçalves e Maria Gonçalves de Sousa foram dilapidados de forma inescrupulosa por pessoas consideradas de alta estirpe na sociedade itaunense da época, inclusive alguns parentes do casal doador, outros de famílias conhecidas e respeitadas, mas que usurparam parte do patrimônio móvel e imóvel doado aos itaunenses. Objetos pessoais e joias pertencentes à Dona Cota sumiram... Da herança do Manoelzinho, terrenos em áreas centrais da cidade, parte do patrimônio da Casa de Caridade, foram parar nas mãos de famílias tradicionais e a elas pertencem. Ações de empresas de tecidos foram negociadas e objetos pessoais, como prataria e joias em ouro, também desapareceram. A história não vai registrar isso de forma detalhada, mas fica grafado aqui, e fatalmente isso vai também ficar registrado em um livro que está em andamento.

Finalizo este artigo transcrevendo uma fala da Dona Maria Gonçalves de Sousa, a Dona Cota, registrada na publicação Itaúna em Detalhes – Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa, editada por mim, com pesquisa e redação final do historiador Guaracy de Castro Nogueira, tendo como fonte de pesquisa a Fundação Maria de Castro.
Consta que Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, em 3 de março de 1917, com 63 anos, e Dona Cota, com 41 anos, e com 23 anos de casados, Manoelzinho fez seu testamento. Residiam em Belo Horizonte e os bens de ambos se ligavam em virtude do regime de casamento. Ambos eram ricos. Manoelzinho faleceu em 29 de julho de 1920, com 66 anos. Os seus sobrinhos, indignados após abertura do testamento, disseram para Dona Cota: “Tia, isso é um absurdo! Ponha advogado”. E ela respondeu: “Eu? Tocar demanda contra pobres de Jesus? Deus me livre de tal coisa!”. Dona Cota era religiosa e temente a Deus.
Ficam então os registros e as opiniões. A Fundação São Vicente de Paula, o Orfanato, em nossa opinião, é hoje uma incógnita. É preciso mais informações. E há ainda outra questão, que, em nossa opinião, é a principal. O objetivo da instituição é abrigar crianças órfãs. Esse está sendo cumprido?

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