Itaúna, suas estranhezas, a aristocracia e a plebe rude

Por Publicado em:29/11/2019 | Atualizado em:29/11/-0001 263

Na semana em que se discutiu na Câmara as emendas impositivas dos vereadores ao orçamento do próximo exercício, em que tentaram de forma não muito efervescente um pedido de cassação do prefeito, em que o ex-prefeito Eugênio Pinto foi condenado a devolver recursos aos cofres públicos e fica inelegível mais uma vez e em que assuntos de maior relevância para a sociedade estão em discussão e/ou em desenvolvimento de ações para se concretizarem, nos deparamos com um pedido para que déssemos repercussão a movimento iniciado por um grupo de pessoas da nossa melhor sociedade aristocrática que visa, segundo eles, revitalizar o Automóvel Clube de Itaúna. Clube decadente, que no auge das décadas de 50, 60, 70 até 80 viveu o seu apogeu com seus bailes de gala, das debutantes, das 10 Mais do Cosme Silva, dentre muitos outros bailes com a Banda Super Som 70, dos bailes de Carnaval que tinham horário para terminar – por volta das 5 horas da manhã, mas que se “esticavam” até às 6 da manhã e incomodavam os padres Waldemar e José Ferreira Neto, com o som do trombone de vara do Argemiro Ferreira e do piston do Freitas e do Geraldo do Iapi, dentre outros músicos, que viravam a madrugada, mas estavam a postos para as tardes do matinê com confetes e serpentina.  

Pois muito bem, não sei de quem foi a ideia, mas resolveram criar um grupo para movimentar a possibilidade do que chamam de revitalização do clube, para depois reverter a sobra da renda da sociedade civil em doações a entidades filantrópicas da cidade. Matéria veiculada em jornal do município afirma que “um grupo se uniu para resgatar a história e lançar uma chapa para disputar as eleições para a diretoria do clube. O objetivo é sanear as finanças e gerir o Automóvel Clube, destinando os recursos financeiros para entidades beneficentes da cidade”. Afirmou o semanário. Ao receber o pedido de repercussão da matéria com publicação na FOLHA, a primeira coisa que fizemos foi ouvir algumas pessoas do grupo e dentro dos padrões que sustenta o bom jornalismo, fomos ouvir o outro lado, o atual presidente, o advogado Fabrício Simonini, que estava indignado com as afirmações de que o clube precisava ter suas finanças saneadas. Mostrou documentos e teceu um “rosário” do que foi feito, pago e recuperado em sua gestão, citou os valores pagos pelos inquilinos do imóvel do Clube, localizado na Rua Capitão Vicente, esquina com Praça Dr. Augusto Gonçalves, e afirmou que tudo está sendo gerido com clareza. Explicou que vai ter eleição em dezembro e que todos os sócios aptos podem formar chapa e se candidatar. Fabrício explicou também que a sociedade, em se tratando de papeis, é uma verdadeira “caixa preta”. Está totalmente desorganizada e se trabalha para reorganizar essa situação. Existem três categorias de sócios, muitos já se foram, não deixaram inventário e calcula-se um número de 1.200 sócios. Fabrício disse que, sendo reeleito, a prioridade será organizar isso e colocar a sociedade em ordem nesse sentido. Garante que financeiramente está tudo certo e que vai publicar balanço. Acreditamos. 

E acreditamos mesmo no moço, que é boa gente. Achamos também que é direito do grupo que se expôs, que conta com pessoas da nossa mais alta estima e todos de credibilidade indubitável, de reivindicar à direção da sociedade, basta para tal estar em dia com o clube e apresentar chapa formada com membros documentalmente em dia com suas obrigações estatutárias. Achamos que essa coisa de doar sobra de recursos, como diz o dito popular, “é uma viagem na maionese” dos participantes, que com isso querem é mostrar que estão com boas intenções. É louvável, mas não funciona em uma sociedade civil que tem mais de 1.000 sócios e que é uma verdadeira caixa preta em se tratando de documentação de sócios. Revitalizar a sociedade é uma causa quase impossível, pois o formato de clube é ultrapassado e não se encaixa mais nesta sociedade moderna, diríamos. O que tem que ser feito é simples: os interessados provam que são sócios regulares com a sociedade civil e formam uma chapa, fazem campanha e ganham a eleição. Pronto. Não há nenhuma necessidade de tentar sensibilizar os outros sócios com conversa de filantropia. A matéria veiculada na semana passada é legítima, mas não é de interesse popular, ou seja, a poucos itaunenses, , muito poucos, o assunto interessa, pois o Automóvel Clube é uma sociedade civil, formada por poucos, que tem como base os descendentes da aristocracia local, misturada com a classe média e seus descendentes, que já não se interessam pelo clube. Ou seja, a comunidade num todo não sabe e nem quer saber do Automóvel Clube, para ela pouco importa se o patrimônio do clube – um prédio decadente, mas ainda robusto – vale isso ou aquilo. Não lhe rende dividendos. Sei o que está por trás, mas ainda não entendi o porquê de se usar a filantropia para atingir os objetivos. Vamos às eleições. Para mim pouco importa quem vai estar à frente da sociedade civil Automóvel Clube de Itaúna. Sou plebeu.

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