“Espécie em extinção”

Por Publicado em:10/01/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 289

Pois é! Vou abrir o ano com nossa primeira edição de 2020 discorrendo sobre os posicionamentos estapafúrdios, pelo menos em nossa opinião, do nosso presidente da república, que, em conversas com jornalistas, disse que eles são uma “espécie em extinção” e que ler jornal envenena. E complementou: “Mas o que acontece? Eu não vou provocar uma crise porque olha só: para vocês da imprensa aí. Essa frase não é minha. Eu quero que vocês mudem. Quem não lê jornal não está informado, e quem lê está desinformado. Tem que mudar isso. Vocês são uma espécie em extinção. Acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção”. A declaração veio após pergunta de um repórter em relação a uma conversa sobre as reformas que estão no Congresso Nacional.

Não acho que estejamos em extinção. Mas se é para nos colocar no patamar dos animais, podemos afirmar também, e tranquilamente, que o nosso presidente não passa de um animal de zoológico, mas deixa essa conversa sobre jumentos para lá e vamos ao que interessa. Em extinção ou não, os jornalistas brasileiros que militam na imprensa País afora, em seus mais variados patamares, dos grandes centros aos municípios de pequeno porte, são os verdadeiros representantes do povo, pois são a voz que alerta, que faz a notícia chegar aos políticos no poder e que têm o poder de coibir os abusos, desmascarar as mentiras e denunciar os que pensam que podem fazer do povo o que bem entendem. A imprensa brasileira é que observa, investiga e, na maioria dos municípios, é a única voz para mostrar que há um Judiciário viciado, um Ministério Público com poderes em excesso, o que precisa ser revisto. E em nossa opinião, a dita “espécie em extinção” é a única que ainda é confiável e que não se submete aos caprichos dos que detêm o poder nas esferas do Legislativo, Judiciário e Executivo. Apesar das controvérsias, mesmo assim, esta “espécie em extinção” ainda fica à mercê das autoridades que não querem ler, ouvir e ver suas ações expostas, pois se acham os todos poderosos e que ninguém pode ousar descortinar a realidade dos poderes constituídos que se apoiam nas falhas da Constituição Federal e nos ultrapassados Códigos Brasileiros, Civil e Criminal, para exercerem o poder a ferro e fogo, prejudicando pessoas honestas que têm opiniões divergentes e acabam sendo transformadas em “bandidas” perante a sociedade.

Entendemos que a “espécie em extinção”, queira o senhor presidente da República ou não, é fundamental para a manutenção da democracia brasileira. Mas é açoitada diariamente porque pergunta, questiona, critica, opina e expõe. Esse é o trabalho dos que compõem a “fauna”, escrita, falada e televisiva. E são por essas ações e pelo dever de informar e opinar que os jornalistas brasileiros são alvo de toda a espécie de ações, como açodamento, constrangimento, ameaças veladas, repreensão e acusações sem fato consumado. E são assassinados, na América Latina 52 foram mortos entre 2010 e 2017 e no Brasil, no mesmo período, 26 foram mortos no exercício da profissão. E é por dever do ofício que são alvo até de investigações que têm como pilar as suposições, acusações sem provas e os devaneios das autoridades constituídas.

Agora, além de todas as dificuldades em exercer a profissão, que já é repleta de obstáculos por natureza, arriscada e visada, os jornalistas ainda têm que conviver com o desrespeito da maior autoridade do País, que acha que não pode ser questionado em nada, que entende que pode fazer o que quiser sem ser interpretado de forma divergente. “Espécie em extinção”? O que está em extinção no Brasil, a passos largos, em nossa opinião, é a democracia exaltada por Ulisses Guimarães e Tancredo Neves. O que está em extinção em nosso País é o direito de expressão. Ou não, afinal é direito do nosso “animal de zoológico”, assim como é direito de toda a “bicharada” que compõe o Congresso Nacional, achar que os jornalistas são uma espécie em extinção. A democracia permite opiniões, divergências e até mesmo ações que não prejudiquem ninguém e sejam revestidas de intenções positivas. Em extinção ou não, já que agora vamos ter “proteção”, uma vez que vamos estar vinculados ao Ibama e estamos entre as 627 espécies ameaçadas de extinção no Brasil, seremos pelo menos respeitados como o Mico Leão Dourado, o Sagui de Duas Cores, a Jararaca, a Perereca-Verde, o Tesourão-Grande, o Pato-Mergulhão, o Rato-do-Mato, o Besouro-Rola-Bosta, o Cação-Bico-Doce... dentre outros. Pelo menos, estando dentre os em extinção e protegidos pelo Ibama, não corremos o risco de estar entre os jumentos, burros, macacos de circo, pavão do rabo colorido, veados, papagaios de pirata, bois de piranha, dentre outros domesticados que compõem as diversas esferas do poder no País que detém uma das mais ricas biodiversidade do planeta. E vamos que vamos, agora protegidos, pois estamos em extinção. Jornalistas de verdade e verdadeiros. É fato.

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