“Analfabetos” em casa

Por Publicado em:19/06/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 122

É impressionante o que um político é capaz de fazer para alavancar o seu mandato na busca de alternativas para se manter no poder por mais um mandato. Em nossos 40 anos de jornalismo, já assistimos a vários debates que consideramos polêmicos e vimos propostas que nem sempre tiveram a cidade e seus habitantes como prioridade. Na maioria das vezes, ou por desconhecimento ou formação política, o que é comum nas composições da maioria das Câmaras Municipais País afora, as propostas têm como foro, o próprio umbigo dos “políticos” barranqueiros do São João. Num país, estados e municípios onde se elegem o Tiririca para a Câmara Federal, um Pinduca de Betim ou um Cleitinho de Divinópolis para a Assembleia Legislativa, um Celserino (que Deus o tenha) ou um Pranchana Jack para a Câmara Municipal, não se pode esperar muita coisa e muito menos projetos que transformem ou preparem a cidade para o futuro. E em função deste quadro, esta semana Itaúna assistiu o sepultamento de uma proposição até certo ponto polêmica do vereador Joel Arruda, o “do Grupo de Oração”, que instituía o ensino domiciliar para os estudantes da educação básica que compreende o ensino infantil, fundamental e médio em Itaúna.

A proposta foi aprovada por 15 votos favoráveis e um contra, ou seja, apenas um vereador, o Gleisinho, foi contrário à propositura. Na votação, não houve polêmica, a sociedade não se manifestou e nem mesmo o meio educacional, professores e donos de escolas. Mas após a aprovação e na iminência de se instituir o homeschooling (brasileiro tem mania de usar a língua inglesa em quase tudo, acha bonito, mesmo sem saber pronunciar corretamente), resolveram se manifestar publicamente e, assim, a pressão junto ao Executivo e aos vereadores acabou promovendo uma mudança de rumos na questão. O prefeito, alegando vício de iniciativa e inconstitucionalidade, vetou o projeto, que voltou ao Legislativo para apreciação do veto. Aí, com professores na porta do prédio da Câmara e muita pressão do Executivo, o placar virou e o veto do prefeito foi mantido por 15 a 1. Fim da polêmica.

Particularmente, somos contra o ensino em casa e expressamos isto ao vereador Joel na semana passada. Somos porque entendemos que o Brasil não está preparado para isso. Se considerarmos o País num todo, poucas são as exceções, talvez os estados do Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – estão preparados para oferecer o ensino domiciliar. Na região Sudeste a classe média-alta e a classe alta, que são uma minoria visível, podem oferecer a modalidade de ensino aos seus filhos, pois são as únicas que os pais tiveram educação de qualidade em colégios particulares, sempre caros, com métodos de ensino de qualidade e produzidos especificamente para eles. Colégios como Bernoulli, Santo Agostinho, Pitágoras, dentre muitos outros que oferecem suas marcas como etiquetas a uma classe que pode pagar. Fora isso, somos um país de semianalfabetos, que estudaram em escolas públicas, sem método de ensino, com prédios precários, sendo ensinados por professores que se esforçaram e se esforçam para ensinar um aluno que vai para a escola com fome, com sapatos apertados e roupas surradas. E que veem os pais saírem para trabalhar com a marmita contendo feijão e farinha.

A realidade nua e crua é que o País, o estado e as cidades interioranas não têm as mínimas condições de oferecer o ensino domiciliar, porque não estão preparados para isso. Pois a preparação passa por boas condições de moradia, de alimentação e emprego. E é público e notório que 90% da população brasileira convive com os três problemas: não têm onde morar, o que comer, pois falta emprego. E para obter esse emprego, falta a qualificação, o estudo básico, que ele não conseguiu na escola pública, onde teve merenda e professores esforçados. E só. A conclusão é a de que o vereador Joel não teve sensibilidade para observar que somos um país de semianalfabetos, que não conseguem repassar nenhum ensinamento a seus filhos e que não têm condições financeiras para contratar professor particular para o homeschooling (sic). O vereador embarcou na proposta neoliberal dos bolsonaristas, que não têm noção do País que governam e acham que estão na Europa, no Velho Mundo, onde as condições sociais são outras. Não se pode argumentar como o Joel, em sua justificativa na propositura do projeto, quando destaca que o homeschooling (sic) é um método mundialmente utilizado como alternativa ao ensino tradicional, que 4 milhões de crianças e adolescentes são ensinados em casa no mundo e que no Brasil cerca de 7.500 famílias são adeptas do sistema de ensino. Em um universo de 7,7 bilhões de habitantes, temos 4 milhões de adeptos, isso é menos de 000,1% da população mundial. E no Brasil, com uma população de 209 milhões, temos, segundo o “Joel da Oração”, 15 mil crianças educadas em casa. Ou seja, menos de 000000,1% da população.

Os números mostram que o vereador se equivocou, não estudou a questão antes de propor o projeto e insistiu em uma proposta que é inviável e não tem como funcionar, pois os pais não têm como ensinar o que não sabem, não tiveram a oportunidade de aprender, são analfabetos sociais. A proposta neoliberal do governo não é compatível com o “status quo” do brasileiro mediano, que é a maioria da população. Para esclarecimento ao vereador Joel, mesmo estando na região Sudeste do País e no Centro-Oeste do território mineiro, portanto sendo uma cidade privilegiada em se tratando de localização geográfica e em se tratado de ensino público, com boas escolas, com professores qualificados e com uma população com nível escolar acima da média, Itaúna, dita Educativa do Mundo pela Unesco e universitária por vocação, ainda conta com centena de milhares de pais sem condições de ensinar o Bê-á-bá para os filhos. Imagine Física, Química, Biologia, Matemática, Gramática, História e Geografia? Matérias básicas no ensino médio. A maioria dos pais brasileiros, mineiros, itaunenses... necessitam é de um caderno de caligrafia, o antigo “Caderno Número Um”. Ilustre vereador, olhe ao redor, entenda o contexto da realidade econômica, social e política do século, da década e do momento, para depois fazer uma proposta. E mesmo que ela tenha uma visão neoliberalista, precisa estar calçada na ótica de um país em desenvolvimento, com problemas sociais gravíssimos e que precisa ainda manter o conservadorismo primário na busca do desenvolvimento de uma sociedade livre, que supere as diferenças e consiga a igualdade social. Homeschooling (sic)?

Avalie este item
(0 votos)

Compartilhe esta notícia


Warning: preg_match(): Unknown modifier '/' in /home/storage/d/52/6b/folhapovoitauna1/public_html/plugins/system/cache/cache.php on line 217