Literalmente de “pires na mão”

A definição popular de que ninguém sabe o que está acontecendo e muito menos como lutar contra o inimigo oculto a olho nu é esta: “de pires na mão”. É exatamente essa a sensação que todos os envolvidos diretamente nas ações para tentar controlar a disseminação do coronavírus em todo o País passam a toda a população, que, diríamos, irresponsavelmente, tenta continuar a viver o dia a dia, mas que se mostra perdida em meio às informações desencontradas, às decisões das autoridades que vão e voltam e à falta de postura pública do comandante da nação, quando se mostra despreocupado com a doença e sua disseminação, a ponto de a Justiça ter que obrigá-lo a usar máscara. Somam-se a isso as idas e vindas no comando do Ministério da Saúde, a política mal desenhada para a saúde pública do brasileiro antes da pandemia e a irresponsabilidade dos governantes em nível de estado e municípios, que se acham donos do poder somente porque receberam nas urnas o aval da população. Em meio a esse desenho desengonçado, retorcido, ainda há a corrupção desenfreada que até em momentos delicados em que a saúde do brasileiro, independente de raça, nível social, intelectual e de educação, está em jogo e predomina nas montagens de hospitais de campanha, compra de materiais hospitalares, de higienização, dentre outros...

E quando falamos em material hospitalar, em medicamentos essenciais, a preocupação agora dobra, pois já começam a faltar dentro dos hospitais medicamentos que são fundamentais para salvar vidas, principalmente em se tratando dos positivos da Covid-19, além de outras enfermidades que dependem de cirurgias de urgência para salvar vidas. As indústrias farmacêuticas já estão comunicando que não têm compostos necessários para a produção de medicamentos como bloqueadores neuromusculares e sedativos, fundamentais para entubar pacientes nos CTIs. Se persistir a situação, dentro de poucos dias teremos agravamento da situação em todo o País. Itaúna não é uma ilha, e nosso hospital já está praticamente sem esses medicamentos. Se não conseguir fornecedores a tempo, dentro de 15 dias terá que recusar pacientes necessitando de cirurgias e acometidos pela Covid precisando de terapia intensiva. Situação grave.

Enquanto isso, as pessoas “brincam” nas ruas sem usar os equipamentos de proteção e outras não mantêm o distanciamento, já que não podem manter a quarentena por motivos diversos, como necessidade de ganhar o pão de cada dia, sair para resolver questões de pagamentos e compras de alimentos para a família. Estamos entrando em uma fase de risco, o pico da pandemia na região metropolitana e cidades do entorno está calculado para o início da segunda quinzena de julho e, se mantidos os cálculos, vamos ter no estado, com ênfase para a capital, Belo Horizonte, problemas com a falta de leitos e medicamentos, o que vai refletir nos hospitais regionais. Em Itaúna, as palavras do secretário de Saúde não são animadoras e transmitem preocupações sérias. A persistir o aumento de contaminados, não restará outra alternativa a não ser retroceder medidas de abertura e podemos mesmo chegar a ter um fechamento total dos serviços, o chamado lockdown, o que acarreta outros problemas, como a piora da situação dos comerciantes, que já não suportam as perdas financeiras dos últimos meses, com muitos deles, como é sabido, não voltando às atividades por falta de capital. Com o fechamento dos estabelecimentos, aumentam também os desempregados, que param de consumir em supermercados, varejões, farmácias, dentre outros.

É preciso das autoridades da área da saúde e do Executivo consciência e firmeza nas decisões, mas essas precisam ser tomadas de forma concisa e preventiva, pois, depois que a situação estiver incontrolável como parece estar próxima de estar, não adianta lamentar as decisões que poderiam ter sido tomadas. É preciso clareza nas explicações e, em nosso entendimento nesse quesito, nosso prefeito não está sendo claro quando vai para as redes sociais manifestar e explicar a situação momentânea a cada semana. Não há firmeza, não passa credibilidade e deixa transparecer falta de sinceridade quanto à realidade. Entendemos que a decisão do governador do Estado em relação à determinação para que a Polícia Militar atue com abordagem às pessoas que não estão cumprindo as regras de distanciamento, isolamento e uso de material preventivo é correta e veio a calhar neste momento crítico. Na verdade, a atuação da PM deveria até mesmo ser mais severa, com exigência de que as pessoas se recolhessem em suas casas imediatamente. Há risco de que ocorra excessos, mas serviria como lição, pois, como bem diz o ditado, o brasileiro só respeita mesmo quando se emprega os rigores das leis. E o momento é de rigor. Melhor que seja assim, pois, se persistir o erro de que “estamos na praia”, ou seja, “nas praças”, além de continuarmos com o “pires na mão”, vamos acabar embarcando em uma viagem sem volta.

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