Uma comenda “ensaboada”

Em outras oportunidades já discutimos neste espaço problemas que envolvem diretamente a nossa comunidade e ações que poderiam ter mudado o destino de muitos itaunense pobres, não fosse a arquitetura do mal exalada da alta sociedade da então Sant`Ana do São João Acima e depois Itaúna, no século passado. No mês que registra o centenário de morte do maior filantropo itaunense, o Coronel Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, o Manoelzinho – homem que deixou sua fortuna ao povo itaunense, pensando em toda a coletividade, com distinção aos pobres –, trava-se nos bastidores, por pseudointelectuais e historiadores de fachada, uma briga surda para ver quem pode melhor exaltar o mais nobre itaunense. A palavra nobreza, um substantivo feminino, pode ter múltiplos significados e definições, mas em todos eles a característica ou a particularidade do que é nobre é definida como ter caráter generoso, magnanimidade; qualidade conferida a pessoas cuja origem há pureza, boa educação, requinte e bons comportamentos ou que contém excelência; elevação, etc. Como podem ver, são qualidades que poucos têm, principalmente na atualidade, quando a individualidade é priorizada em uma sociedade consumista.

Definido a nobreza do maior benfeitor, entendemos que Itaúna deve muito a esse homem e agora, 168 anos após seu nascimento e ao relembrar o centenário de sua morte, resolveram homenageá-lo instituindo uma comenda com seu nome. A Comenda Manoel Gonçalves, instituída pelo Poder Legislativo Itaunense, que será entregue pela primeira vez na terça-feira, dia 28, às 16 horas, no plenário da Câmara Municipal, conferida a representantes dos poderes constituídos, Legislativo, Executivo e Judiciário, além de instituições e empresas que tiveram a participação de Manoel Gonçalves ou foram instituídas graças ao seu desprendimento e vontade. Entre elas estão a Cia. de Tecidos Santanense e a Cia. Industrial Itaunense. As instituições Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, representada pela sua provedora, Marilda Chaves; a Fundação São Vicente, representada pelo seu provedor; Colégio Estadual de Itaúna, representado pela sua diretora; o Instituto Maria de Castro, representado pelo seu presidente atual; e o Colégio Sant’Ana, representado pelo seu diretor e/ou o presidente da Associação que o gere hoje.

E é aí que começamos a desconfiar desta intenção de “homenagear” o filantropo Manoel Gonçalves. No artigo 3º da Resolução nº 05/2020, que cria a comenda, consta que nos anos subsequentes ao da sua promulgação as Comendas serão entregues a personalidades que contribuem para o desenvolvimento social do nosso município, e serão regulamentadas através de portaria feita pelo presidente do Poder Legislativo. Fica explicado. A comenda será mais um instrumento político para que os vereadores e o presidente da Casa Legislativa possam afagar a quem lhes interessar, desde que obedecido o mínimo de critério para se reconhecer os que contribuem (personalidades e instituições) para o desenvolvimento social do Município. E isso fica evidente já nesta primeira condecoração. Por que o Colégio Sant’Ana está sendo condecorado? A instituição de ensino que abriga em suas salas de aulas os filhos da elite econômica e social de Itaúna contribui com o quê no desenvolvimento social da comunidade? Nesta mesma página, logo abaixo, é possível ver os absurdos cometidos em nome da religião e dos bons costumes. Não há motivos para o Colégio Sant’Ana estar entre os homenageados. Não contribui em nada para o desenvolvimento social de Itaúna. Além disso, há dúvidas quanto ao seu destino quando se vai estudar a doação de Manoel Gonçalves ao povo itaunense, as mudanças estatutárias e os desmembramentos do testamento. A Escola Estadual, antes o colégio para moças, é hoje um órgão de ensino do Estado, cumpre o seu papel e pronto. É dever do Estado oferecer a educação básica. Fim. À Cia.

Industrial Itaunense não vejo nenhum motivo para a condecoração. No passado, no seu auge, pode ter contribuído para o desenvolvimento social da comunidade, mas sempre atuou visando o lucro e o poder político. Não justifica receber hoje uma comenda. À Cia. Tecidos Santanense, qual o motivo? Foi a empresa fundada pelo pai de Manoel Gonçalves e por ele, mas, além de visar o lucro, qual a contribuição social oferece ao município? Paga os impostos e dá emprego. Ponto final. O Instituto Maria de Castro, criado pelo valoroso Dr. Guaracy de Castro Nogueira, tem o maior acervo de documentos sobre o Município e é o guardião da nossa história. É uma instituição importante, mas contribuição social? Não há motivos. O Poder Judiciário fez e faz a sua parte, fez cumprir o testamento de Manoel Gonçalves. E o Ministério Público é o órgão fiscalizador. Comenda? Para quê e por quê?

Em paragrafo à parte, gostaríamos de comentar as comendas aos Poderes Executivo e Legislativo e ao deputado estadual majoritário no município. Não justifica, além disso é, em se tratando do Legislativo e do Executivo, uma inversão de valores. Os dois deveriam estar trabalhando para engrandecer o nome do filantropo Manoel Gonçalves, criando novos programas de assistência social. O Legislativo cobrando maior investimento da prefeitura no Hospital criado por Manoel Gonçalves; e a prefeitura oferecendo mais apoio e investimentos nos setores da saúde e assistência social. Se está fazendo, está cumprindo o seu papel. Não precisa e não merece os “louros” de uma comenda desta envergadura. Quanto ao deputado Estadual, cumpre o seu papel de intermediário entre o Estado e o Município. É o representante do povo. Nada mais. Está fazendo a sua obrigação. E foi eleito para isso.

Quanto à homenageada com a comenda Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, mantenedora do Hospital, a única coisa que temos a dizer é que cumpre o papel do idealizador. Aos que estiveram e estão à sua frente, no seu comando, cabe fazer isso, e foi por escolha. Muitos, no passado, contribuíram foi para dilapidar o patrimônio do benemérito deixado ao povo de Itaúna. Batemos palmas para os que trabalham no Hospital, todos, provedoria, médicos, enfermeiros e serviçais. Todos merecem os nossos aplausos, mas comenda? Por quê?

Infelizmente, como diria o saudoso jornalista Sebastião Nogueira Gomide, o Piu – que travou desde a década de 50 do século passado, nas páginas do jornal FOLHA do Oeste, até a sua morte, uma batalha contra os que comandavam o patrimônio do Manoelzinho, na Casa de Caridade, e dilapidaram o patrimônio deixado com atos absurdos, sumiço até de joias, terrenos em área central, e muitas outras falcatruas –, estão criando uma comenda para homenagear e enaltecer os que estão cuidando do que restou do legado do itaunense Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, que é quem deveria estar sendo homenageado com seminários, missas, filme, documentários, publicações e principalmente com palestras via todas as mídias possíveis.

Está comenda já nasceu, em nosso conceito, “ensaboada”. Mas Itaúna é, de fato, ímpar. É mesmo a Terrinha de Borba Gato! E o Manoelzinho deve estar revirando no túmulo. Mais uma vez!

Avalie este item
(0 votos)

Compartilhe esta notícia


Warning: preg_match(): Unknown modifier '/' in /home/storage/d/52/6b/folhapovoitauna1/public_html/plugins/system/cache/cache.php on line 217