Sobre aquilo que achamos que somos

Por Publicado em:23/07/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 115

A vida nos empresta a criatividade que usaremos para escolher nossa profissão, para nos motivar a sonhar e para reunir as forças necessárias a realizarmos qualquer coisa. Elizabeth Gilbert é autora do best seller “Comer, Rezar, Amar”. A escritora produziu uma reflexão rica sobre essa força, invisível, que por vezes alimenta trabalhos belíssimos, mas também frustra, mata e acaba com muitos – quando se faz ausente. Compartilho abaixo a filosofia dela.
Os escritores e as pessoas criativas de todos os tipos parecem ter essa fama de serem emocionalmente muito instáveis, diferentemente de um engenheiro, por exemplo. E se olharmos para a triste marca do número de mentes criativas magníficas mortas apenas no século 20: muitos jovens e muitos suicídios. E mesmo aqueles que não cometeram suicídio, literalmente, parecem ter sido derrotados pelos seus dons. Norman Mailer, pouco antes de morrer, em sua última entrevista, disse: “Cada um de meus livros me matou um pouquinho”.
Eu acho que é muito melhor a gente encorajar as mentes criativas a viver.
Na Antiga Grécia e em Roma, as pessoas não acreditavam que a criatividade viesse dos seres humanos. Elas achavam que criatividade era um espirito divino de plantão que vinha ter com os seres humanos de uma fonte distante e desconhecida por razões distantes e desconhecidas. Os gregos chamavam esses espíritos criativos divinos de “daemons”. Sócrates, diz a lenda, acreditava ter um daemon que lhe dizia de longe palavras de sabedoria. Os romanos tinham a mesma ideia, mas eles chamavam esses espíritos incorpóreos de gênios. O que é ótimo: os romanos não acreditavam que um gênio era uma pessoa particularmente inteligente. Eles achavam que gênio era esse tipo de entidade mágica e divina, se acreditava, viviam literalmente nas paredes do estúdio de um artista. É a tal “construção psicológica” que vai te proteger do resultado do seu trabalho. O artista na antiguidade ficava protegido de certas coisas, como, por exemplo, de um excesso de narcisismo. Se seu trabalho fosse brilhante, você não podia levar todos os créditos por isso, todo mundo sabia que você tinha um gênio invisível que te ajudava. E se seu trabalho fosse um fracasso, também não era só culpa sua.
Veio o Renascimento e mudou tudo: vamos colocar o homem no centro do universo acima de todos os deuses e mistérios e não haverá mais lugar para criaturas místicas que ditam coisas de uma fonte divina. Este foi o início do racionalismo humanista. As pessoas passaram a acreditar que a criatividade vinha inteiramente do próprio indivíduo. E pela primeira vez na história, a gente começa a ouvir as pessoas se referirem a este ou aquele artista como sendo um gênio ao contrário de “ter” um gênio. Isso foi um grande erro. Permitir que alguém, uma mera pessoa, acredite que ele ou ela é o vaso, o molde, a essência e a fonte de todo o mistério criativo, divino, eterno e desconhecido. É um pouco de responsabilidade demais para a nossa psique humana e frágil. É como pedir a alguém que engula o Sol. Isto só distorce e deforma egos e cria expectativas incontroláveis sobre a nossa atuação. É essa pressão que vem matando nossos artistas durante os últimos 500 anos.
Talvez a gente não possa simplesmente apagar 500 anos de pensamento racional humanista. Mas a sociedade precisa refletir sobre o assunto.
Séculos atrás nos desertos do norte da África, as pessoas se encontravam para fazer música e dançar ao luar que duravam horas, até o amanhecer. Uma vez ou outra, raramente, acontecia alguma coisa, e um desses bailarinos transcendia. Era como se ele fosse iluminado de dentro para fora pelo fogo divino. Quando isso acontecia, as pessoas sabiam do que se tratava e o chamavam pelo nome. Elas juntavam as mãos e cantavam, “Alá, Alá, Alá, Deus, Deus, Deus”. Para quem estava ali, era Deus. Quando os mouros invadiram a Espanha, eles levaram consigo esse costume e sua pronúncia mudou com o passar do tempo, de “Alá, Alá, Alá, para Olé, olé, olé”. Algo que ainda se ouve em touradas e danças flamencas. Na Espanha, quando um artista faz alguma coisa impossível e mágica, “Alá, olé, olé, magnífico, bravo” é algo incompreensível é um lampejo de Deus. O que é ótimo, porque nós precisamos dele. Mas a parte complicada acontece na manhã seguinte, para o dançarino, quando ele acorda e descobre que é terça feira, são 11 da manhã e ele não é mais um lampejo divino. Ele é apenas um mortal que está envelhecendo com joelhos estourados. Quem sabe ele nunca mais suba tão alto. E talvez ninguém mais cante seu nome outra vez enquanto ele gira, e então, o que ele deve fazer com o resto de sua vida? É difícil. Esse é um dos mais dolorosos acertos a se fazer numa vida criativa. Mas, digamos que isso não tenha que ser tão angustiante se você nunca acreditar, em primeiro lugar, que os aspectos mais extraordinários do seu ser vêm de você. Quem sabe seja melhor acreditar que eles são emprestados a você por uma fonte inimaginável de uma parte rara de sua vida que será passada para alguém quando você partir. Se a gente pensa nisso desta forma, tudo começa a mudar. Para qualquer pessoa.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.