Meu profundo reconhecimento aos enfermeiros

Por Publicado em:30/07/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 110

Esta pandemia deixou claro que uma doença não atinge apenas a saúde física. Nessa guerra, fomos atingidos por todos os lados. Proteger nosso organismo contra o vírus nem sempre causou menos estresse do que lidar com a ansiedade, o luto, a frustração, a revolta e a dor criados ao nosso redor pela doença. Enquanto o nobre trabalho de médicos resolvia difíceis desafios técnicos, o maior volume de nossas batalhas está sendo lutado por enfermeiros e enfermeiras. Nos corredores dos hospitais, mas agora – sobretudo – nos milhares de tendas de vacinação. Mais do que conhecer o vírus, os profissionais de enfermagem estão me ensinando, como nunca, que eles conhecem de gente, de ser humano. De Dona Maria e de Seu João. De pessoas que chegam para vacinar mais contaminados pelo medo e pelo cansaço do que pela covid19. Vencer a pandemia só é possível em razão das doses de humanidade que recebemos, quando um enfermeiro ou uma enfermeira nos oferecem uma dose de vacina ou um suporte na UTI.
Antes da covid19, eu sempre vi pacientes se esquecerem do nome de enfermeiros, mas se lembrarem do de médicos. Na última semana, testemunhei o porquê isso mudou. Enfermeiros são a linha de frente quando um cidadão amedrontado chega para tomar vacina e não consegue conter sua revolta contra problemas causados por má gestão da saúde pública. Eles precisam escutar tudo que deveria ser dito a autoridades políticas. Mas conseguem responder com compaixão e empatia. Fazem turnos intermináveis em hospitais públicos desequipados, mas conseguem achar energia para acordar no momento exato em que será necessário despertar um pai, porque seu filho está prestes a dar o último suspiro na cama do hospital. E sabe se lá com que dádiva, conhecem o tempo exato de deixar o familiar se despedir do paciente. Durante esta jornada interminável da pandemia, certamente a vocação da enfermagem falou mais alto do que qualquer salário que se possa pagar para um profissional da medicina. E mesmo assim, pude ver outdoors anunciarem que os enfermeiros não querem ser reconhecidos como heróis. Mas como profissionais respeitados pelo que fazem. Coisa curiosa ser um profissional com habilidades tão complexas e sensibilidade tão potente. Mais do que o horário de serviço, os profissionais de enfermagem enfrentam desrespeito, falta de reconhecimento e até desacato causados pela dor de cidadãos cansados. Mas, como num daqueles filmes em que o herói é um tipo de pessoa sobre-humana, revertem cenários caóticos em diálogos leves. Conversam sobre a vida, quando a morte se faz absurdamente presente. Sorriem com verdadeira empatia, quando todos em volta só sentem vontade de chorar.
Hui-wen Sato é uma enfermeira pediátrica do Hospital de Crianças de Los Angeles. Ela publicou recentemente uma reflexão interessante sobre lições provenientes da dor que sua profissão, por vezes, oferece. Nas palavras dela: “A dor é forte, é assustadora, e ninguém sabe com certeza aonde ela vai nos levar. Mas para um paciente, sua família, e para todos nós, quando nos encontramos em situação complexa, a dor é natural. Então se minha estratégia de resistência como enfermeira é tentar nadar contra a correnteza da dor tentando reprimi-la, e contra a próxima corrente e contra a próxima, eu não vou vencer. Logo, eu não vou durar. Ao invés de resistir à dor e dizer: “É muito difícil pensar nessas questões”, eu posso escolher outra perspectiva ao aceitar o inevitável fato de que eu vou ser afetada pela dor. Posso interpretar minha dor como sendo uma professora natural das coisas mais profundas que eu preciso para resistir como enfermeira. Assim, aprendi: a resiliência em meio à exaustão, o significado em meio ao desespero, a redefinição de propósito e a redefinição do idealismo abalado em empatia pelos pacientes e por suas famílias”.
A pandemia da covid19 nos relembrou que nenhum de nós está imune aos abalos de uma crise na Saúde. Mesmo que seja na tentativa de preveni-la por meio de vacinação. Sem enfermeiros e enfermeiras, nenhum de nós teria a mínima chance de atravessarmos com dignidade os momentos mais difíceis das vidas nossas e de nossas famílias.
Para sempre, minha gratidão e reconhecimento emocionado pelo trabalho que vocês, profissionais da enfermagem, realizam por nós. Absolutamente todos nós.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.