O populismo é uma anti-ideologia. Parte 2. É apenas discurso do medo ver Fascismo em Bolsonaro ou Comunismo em Lula

Por Publicado em:10/09/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 56

Na guerra pelo voto da sua família, o medo é uma arma arrebatadora. Ele cega e te faz relevar a razão ou o bom debate. Já se perguntou se você anda abrindo os ouvidos apenas para quem pensa exatamente igual a você e, portanto, cultiva exatamente os mesmos medos que os fantasmas de sua mente? Quando um líder político diz que o adversário é um monstro porque transformará o Brasil em um reino comunista ou um império fascista, fazemos bem em entender o assunto melhor. Depois, com a sensatez do conhecimento de causa, podemos chegar a nossas próprias conclusões. Segundo o respeitado filósofo, jurista, cientista-político e ex-senador italiano Norberto Bobbio – populismo é uma crença em torno de um líder político messiânico capaz de guiar aqueles que decidirem ser “seu povo” em uma cruzada contra outro grupo de pessoas “não-povo”. No caso brasileiro, o “não-povo” pode ser uma ‘elite política’, por exemplo. Lula e Bolsonaro são populistas tupiniquins. E isso impede a possibilidade de eles serem, ao mesmo tempo, comunista ou fascista. É uma questão factual objetiva, assim como um pássaro não pode fazer as vezes de um mamífero e parir um filhote. Lamento, mas terei que causar alguma frustração. Nenhum dos dois consegue dar à luz o fascismo ou o comunismo, nas versões verde-amarela.

Ainda guiados por Bobbio, sabemos que o populismo é um fenômeno político que não enxerga classes – algo fundamental no fantasma do comunismo. Ele é conciliador e espera transformar o establishment – o grupo de quem manda no país. O PT gritava contra “sistema político corrupto e o judiciário comprado”, lá atrás, antes da primeira eleição de Lula. Hoje, parece que voltamos no tempo, quando escutamos a militância bolsonarista esbravejar do mesmo jeito. Transcrevo a precisão do professor italiano: “O não-povo [estes inimigos acusados por Lula e Bolsonaro] é visto a uma luz demoníaca como corpo conspirativo, como uma espécie de conjuntura permanente, de proporções universais. Um líder populista americano, o senador Peffer, lamentou: ‘Uma vasta conspiração contra o gênero humano foi organizada nos dois continentes e se está apoderando rapidamente do mundo”. As expressões ‘conspiração comunista” ou ‘conspiração fascista’ ocorrem alternativamente à boca dos líderes populistas. A área populista está dominada pelo pesadelo de perenes xingamentos. O fenômeno é mais moralista que programático. Ele carrega uma ideologia vaga e as tentativas de o definir com exatidão provocam irrisão e hostilidade. Fideísmo é uma doutrina teológica que despreza a razão e preconiza a existência de verdades absolutas fundamentadas na crença pessoal abstrata. O populismo é fideísta nas premissas, ele é messiânico nos módulos de ação, teme ciladas constantes contra aquilo que ele enxerga como ‘pureza popular’ e busca sobrevida em formas carismáticas, tende a expulsar questões ou figuras que pareçam com um germe parasitário do grupo de pessoas que se enxerga como o “único e verdadeiro povo”. Consegue se lembrar de algum lulista excluir outros indivíduos daquilo que ele chama de povo e vice-versa?

Enquanto o Fascismo carrega um longo debate conceitual em torno de como podemos defini-lo além do fenômeno histórico italiano, algumas de suas características como a proibição de armas nas mãos da população, o totalitarismo, o desprezo ao individualismo e o ideal da colaboração de classes são pontos suficientes para riscarmos a chance de Jair Bolsonaro ter visões sequer parecidas com o fenômeno. Do outro lado, poderíamos resgatar as origens do ideal comunista, curiosamente presentes nos primeiros escritos da civilização cristã. Foi na Bíblia que floresceram os primeiros ideais comunistas dirigidos a toda a população. A riqueza é considerada má em Mateus VI, 19 -21, os pobres são proclamados os únicos dignos do reino de Deus em Lucas VI, 20 e Marcos X, 21 -25 ainda exorta que se despoje de tudo que possuímos para dar aos pobres. Ideais de vida em comum, baseada na pobreza e na caridade são exaltados desde ordens monásticas a movimentos heréticos, que criticavam abertamente a propriedade privada. Ou, a exemplo da pregação de Joaquim de Fiore, fazia elogio à comunhão universal sem a existência do “meu e do seu”. Sem precisar chegar ao século XX, o caráter ecumênico e aclassista do populismo, garante a legitimidade do jeito de governar de Luís Inácio por meio da legitimidade moral e da aceitabilidade política.
Lula e Bolsonaro são parecidíssimos, em vários aspectos, quando o assunto é método de se fazer política eleitoral. Por mais que os militantes lulistas precisem acreditar que Bolsonaro implementará o fascismo e os militantes bolsonaristas tenham criado uma dependência em acreditar que Lula vem preparando o comunismo no Brasil.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.