A exploração que fazem de nossa ideologia política

Por Publicado em:08/10/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 47

Nossas características psicológicas moldam nossa forma de envolvimento com o mundo. Repito: o perfil psicológico de cada um de nós faz com que escolhamos entre olharmos para o mundo de maneira mais flexível ou de maneira mais segura. Tragicamente, porém, incentivos políticos e econômicos de nosso ambiente midiático procuram explorar essas diferenças para nos irritar, chamar nossa atenção, obter cliques e nos voltar uns contra os outros. E funciona. Funciona em parte porque esses mesmos conjuntos de características estão relacionados a crenças políticas e culturais, sobre as quais apoiamos nossa existência, nossos interesses. A Ph.D em Comunicação, Dra. Dannagal Young, professora de Ciência Política da Universidade de Delaware, publicou mais de quarenta artigos acadêmicos e capítulos de livros sobre o conteúdo, psicologia, apelo e efeitos da informação política, sátira e desinformação. Apresento, honrado, a última provocação da pesquisadora sobre o assunto. Hoje, ela se prepara para lançar a obra: “Wrong: how identity fuels misinformation and how to fix it” [tradução livre: Errado: como identidades alimentam a desinformação e como consertar isso].
A Dra. Young estuda de que maneira essas duas abordagens moldam a forma como pensamos e sentimos sobre tudo, de arte a política. Ela analisa como elites políticas e mídia partidária usam essas mesmas diferenças para gerar ódio ou medo. Como a economia de nosso sistema de mídia explora essas divisões. Os dois polos de características são necessários e até valiosos. De um lado, uma pessoa que aceita a ambiguidade da vida, é aberta e busca estar bem sem saber exatamente o que acontecerá; alguém tolerante. De outro lado, um cidadão que enxerga o mundo como potencialmente bom, privilegia a ordem, a previsibilidade, a tradição, a lealdade e a família.

Durante anos, psicólogos políticos estudaram como nossas características psicológicas moldam nossas crenças políticas. Conduziram experimentos para entender como nossa psicologia e política moldam nossa reação a estímulos apolíticos. Essa pesquisa mostrou que pessoas menos preocupadas com ameaças e tolerantes com a ambiguidade tendem a ser mais liberais cultural e socialmente em questões como imigração, crime ou sexualidade. Por serem tolerantes com a ambiguidade, também tendem a aceitar as nuances e gostam de pensar só por pensar, o que ajuda a explicar por que existem preferências estéticas distintas à esquerda e à direita, sendo mais provável que liberais, e não conservadores, apreciem coisas como arte abstrata ou mesmo histórias que carecem de um final claro. No trabalho experimental da Dra. Young, ela descobriu que essas diferenças ajudam a explicar por que é mais provável que a sátira política irônica seja apreciada e compreendida por liberais do que por conservadores. Por outro lado, pessoas que monitoram ameaças e preferem certeza tendem a ser nossos conservadores políticos, culturais, sociais. Por estarem alertas, também tomam decisões com rapidez e eficiência, guiados pela intuição e pela emoção. Essas características ajudam a explicar por que conservadores gostam de discursos de opinião política que identificam ameaças e inimigos de maneira clara e eficiente.

Porém o fundamental é que essas propensões não são absolutas, não são fixas. O elo entre psicologia e política depende do contexto: com quem estamos e o que está acontecendo ao nosso redor. O problema é que, neste momento, nosso contexto dominante, nosso contexto político e de mídia, precisa, na verdade, que essas diferenças sejam absolutas, sejam reforçadas e até mesmo transformadas em armas. Por razões relacionadas ao poder e ao lucro, alguns na política e na mídia querem que acreditemos que aquelas pessoas que abordam o mundo de maneira diferente de nós são perigosas. As plataformas de mídia social usam algoritmos e microssegmentação para entregar mensagens que causam divisão em nossa estética preferida de mensagens, mensagens que se relacionam com política, cultura e raça. Vemos os efeitos devastadores dessas mensagens todos os dias: brasileiros que estão com raiva e com medo do outro lado, ações “do outro lado destruindo” o Brasil.
O que aconteceria, no entanto, se essas diferenças nunca tivessem sido transformadas em armas? São inclinações liberais para abertura e flexibilidade que nos permitem lidar com a incerteza e que nos permitem explorar novos caminhos para inovação, criatividade, descoberta científica. Pense em coisas como viagens espaciais ou curas de doenças ou arte que imagina e reimagina um mundo melhor. E aquelas inclinações conservadoras para vigilância, segurança e tradição. São essas coisas que nos motivam a fazer o que deve ser feito para nossa própria proteção e estabilidade. Pense na segurança oferecida por nossas forças armadas ou na segurança de nosso sistema bancário. Ou pense na estabilidade oferecida por instituições democráticas ou tradições culturais.
E se a verdadeira ameaça à sociedade e à democracia não for, na verdade, representada pelo outro lado? E se o perigo real for representado por narrativas de líderes políticos e de mídia partidária que tentam nos fazer pensar que estaríamos melhor sem o outro lado e que usam essas divisões para seu próprio benefício pessoal, financeiro e político? Talvez seja o momento de olharmos para o “outro lado” e apreciar pessoas reais e nos conectarmos com essas outras pessoas reais, apreciando estas duas abordagens pelo que são: presentes necessários que podem nos ajudar a sobreviver e prosperar juntos.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.