O Réveillon foi contagiante, a pandemia não acabou

Por Publicado em:07/01/2022 | Atualizado em:29/11/-0001 81

Fomos até o limite do cansaço relacionado a usar máscaras e nos privarmos de reuniões com amigos e familiares. As vacinas trouxeram o aparente alento que queríamos para extravasar a vontade de mandar todas as medidas sanitárias às favas. Contudo uma boa parte de nós se esqueceu que todo arsenal usado contra a covid19 também tem potencial para influenciar no aparecimento de outros problemas: como variantes SARS-cov e cenários mais vulneráveis à Influenza da estação. Os hospitais estão lotados. E a despeito da guerra de narrativa ideológica improdutiva sobre vacinas e teorias da conspiração, seria cegueira achar que o atual cenário é apenas uma coincidência, em vez de ser um efeito colateral. Que fique claro: esses problemas atuais não desmerecem a necessidade de tudo que foi feito (em alguns aspectos, de maneira experimental) para se combater a mortal covid19. Os milhões que perderam parentes próximos certamente teriam ido ainda mais longe nas tentativas de se combater o fenômeno sanitário sem precedentes em qualquer geração de ser humano vivo hoje. Uma boa analogia é lembrar que pacientes se submetem a tratamentos desgastantes, a exemplo de uma quimioterapia, em busca de exterminar um mal maior. Lutamos desesperadamente pela vida. Mas, à medida que os números melhoraram, começou a sobrar tempo e energia para uma luta político-ideológica que está ocupando o lugar da lembrança de que a pandemia ainda está longe de acabar. E isso não é demérito para vacinas ou quaisquer outras medidas.

Maria Van Kerkhove é a líder técnica o combate à covid19 da Organização Mundial da Saúde. Transcrevo as palavras dela mais recentes sobre o momento atual. Ela afirma que nunca mais devemos passar pela situação de o mundo ser surpreendido e controlado por um vírus invisível. Nunca mais devemos passar pela situação de um vírus causar tantas mortes. Nunca mais devemos passar pela situação de um vírus roubar tantos futuros. Mas infelizmente, vamos passar. E explica por que é que isso pode acontecer, mas também fala da forma como podemos evitar e sobre como precisamos nos preparar melhor. Cada um de nós, onde quer que estivermos temos um papel a desempenhar para garantir que estamos mais bem preparados e que lidaremos melhor com a próxima.

Comecemos pela Ômicron. É uma variante preocupante. É uma nova variante, extremamente divergente das outras variantes que estão em circulação, de outros vírus que estão em circulação. Tem um enorme número de mutações. A preocupação que temos é o número de mutações que há. Algumas das mutações presentes nesta variante, o Ômicron, estão presentes noutras variantes: Alfa, Beta, Gama, Delta. Sabe-se que têm certas propriedades nefastas. Por exemplo, algumas destas mutações podem conferir uma transmissibilidade acrescida. Algumas delas podem conferir uma possível evasão imunológica, ou seja, as vacinas podem não funcionar. Sabe-se que esta variante tem propriedades de transmissibilidade acrescida, mas não se sabe exatamente até que ponto e não se sabe se serão superiores às do Delta. Temos de nos lembrar que tudo isto é no contexto do Delta, outra variante preocupante que grassa pelo mundo inteiro e está matando gente em todo canto. Sabemos alguma coisa quanto a sua gravidade. Mas não o suficiente para poder falar em detalhes sobre o seu perfil, se é ou não pior — se os que estão infectados com Ômicron têm uma doença mais grave ou não. Esses dados são reveladores e esperamos ter mais dados nas próximas semanas. As pessoas infectadas com Ômicron podem ter uma doença suave ou podem ter uma doença grave e morrer. Ainda não sabemos o suficiente dado o tempo de as pessoas infectadas desenvolverem a doença e, por fim, terem uma doença grave. O aparecimento da Ômicron é totalmente esperado. O vírus está evoluindo. É isso que os vírus fazem. Quanto mais o vírus circular, mais oportunidades têm de mudar. A Delta também está evoluindo. Estamos a detectar pelo menos 30 subestirpes da Delta, uma das quais tem propriedades de transmissibilidade acrescida. O problema não é o seu aparecimento, mas se se irá embora.

A grande questão é, será que as vacinas vão funcionar com a Ômicron? O que sabemos de algumas das mutações no Ômicron é que elas conferem alguma possível evasão imunológica. Sabemos com certeza que as vacinas que temos neste momento são extremamente eficazes em evitar a doença grave e a morte. Extremamente eficazes. É espantoso já haver tantas vacinas disponíveis. O que é preciso é que as pessoas se vacinem, no mundo inteiro.
A grande notícia há poucas semanas era o que se passava na Europa, onde quase 70% dos casos mundiais se situavam, onde há pessoas morrendo em países em que há acesso às vacinas. Porque é que isto acontece? Porque é que não administramos as vacinas às pessoas que correm maiores riscos? Ao mesmo tempo, porque é que não reduzimos o contágio onde podemos? E não me refiro ao confinamento. A ideia de que temos de estar totalmente abertos ou totalmente fechados é francamente ruim. Temos máscaras, temos distanciamento, fazemos esforços para melhorar a ventilação onde vivemos, onde trabalhamos, onde estudamos. Sabemos que podemos evitar multidões. Por que é que não fazemos isso agora, em vez de fazermos para sempre? Não vamos estar nesta pandemia para sempre. Ela vai acabar. Isso é uma coisa que posso garantir, que esta pandemia vai acabar. O problema é quando. E a questão é: será que vamos avançar todos juntos? Os líderes vão se juntar para nos aproximarmos do fim ou vão empurrar-nos ainda mais para além desse final?
Sempre haverá o aparecimento de agentes patogénicos. Haverá sempre a ameaça que um novo vírus nos infectará. Não é possível evitar todas as pandemias, mas podemos estar numa situação melhor onde minimizamos a hipótese de ela passar de um animal para as pessoas e depois espalhar-se. Maria Van Kerkhove afirma que, enquanto cientista, ela nunca tinha experimentado ou estava totalmente desprevenida para lidar é o “negacionismo”. Aquilo de que a acusam pessoalmente, de que acusam a OMS, enquanto organização. Ela diz que é difícil de aceitar porque todo o seu trabalho tem sido ajudar as pessoas e salvar vidas. É para isso que a equipe dela trabalha. Apenas isso.

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