A dilapidação da herança de Manoel Gonçalves de Sousa – o caso Colégio Sant’Ana. Ainda dá tempo de recuperarmos os desvios

Por Publicado em:24/07/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 138

A herança do Tenente-Coronel Manoel Gonçalves de Sousa Moreira pertence ao povo carente da cidade de Itaúna. Por isso, “Itaúna é moralmente dona do Colégio Sant’Ana e a congregação legalmente” – segundo o sétimo parágrafo da Ata da Assembleia Geral Extraordinária da Congregação do Espírito Santo, em 12 de setembro de 1991. Sem que nossa gente tivesse controle, ocorreu a dilapidação da obra filantrópica e os desvios institucionais das finanças provenientes do espólio deixado pelo benemérito Manoelzinho para se criar o hospital da cidade. Seriam noventa e sete milhões e meio de reais, em valores atualizados. E milhares de crianças itaunenses em “pobreza, aptidão intelectual e boa formação” teriam tido seus estudos de qualidade patrocinados – segundo a Escritura Pública (31/05/1955) de transferência do Colégio Sant’Ana e seu imóvel, que pertenciam ao Hospital Manoel Gonçalves de Sousa Moreira. Hoje, uma mobilização dos poderes públicos municipais tem a chance de realizar a maior homenagem que Manoelzinho poderia receber na celebração de seu centenário. Em pleno 2020, nossos líderes possuem tudo o que precisam para pressionar o Colégio Sant’Ana a conceder as bolsas de estudo devidas às crianças carentes da cidade, conforme obrigação registrada nos estatutos da escola e no testamento que a financiou.

No dia 23 de junho de 1945, a Santa Casa itaunense usou do dinheiro doado por Manoelzinho para comprar o imóvel onde hoje funciona o Colégio Sant’Ana, à rua Dr. José Gonçalves – segundo transcrição no Cartório de Registo de Imóveis da Comarca de Itaúna. Formalmente, entre 1945 e 1955, o Ginásio Sant’Ana (seu nome à época) pertencia à Escola Normal, que era propriedade da Casa de Caridade. Da herança benemérita, já haviam saído investimentos educacionais fracassados. Segundo o historiador Guaracy de Castro Nogueira, foram uma escola para moços. Logo após o hospital direcionar dinheiro para construção e funcionamento da Escola Normal, para moças, tentou-se dar força ao “Gymnásio Itaunense e Escola Comercial Anexa”. Funcionou no antigo prédio da Fundição Corradi, na avenida Getúlio Vargas, em frente ao atual Lua Clara. A iniciativa data de 02 de abril de 1931 e tem a liderança do Padre Inácio Fidelis Campos, apoiado pelo Dr. Joaquim de Araújo Mendes. O intento deu errado e jogou nas costas do sucesso do Colégio Sant’Ana a responsabilidade do retorno sobre o investimento em Educação feito com o dinheiro do Manoelzinho, desde antes.

A principal condição imposta pela direção da Casa de Caridade Manoel Gonçalves à injeção de dinheiro no Colégio Sant’Ana era a concessão de bolsas de estudo para a população carente de Itaúna. Era o ponto que materializava a razão de ser da herança de Manoelzinho. Isso era tão importante que virou requisito para a transferência de administração do Colégio, quando ele foi entregue à Congregação do Espírito Santo, mediante um minúsculo valor simbólico. Na escritura pública (nº 15.362, fls.81, livro 3_T do Registro de Imóveis de Itaúna) que realizou o negócio, consta da página dois que a Congregação deveria se comprometer a distribuir “gratuidades” em cada série sob o critério de “pobreza, aptidão intelectual e boa formação moral”. Este propósito constou dos termos estatutários do Colégio durante 60 dos 77 anos de sua existência, até que foi curiosamente ocupando menos espaço no texto, e desapareceu, na reforma estatutária de 15 de dezembro de 2003, quando o lugar se tornou formalmente uma Associação. Antes disso, o documento definia o Sant’Ana como uma entidade filantrópica que, ao possuir condições financeiras, deveria criar mecanismos capazes de levar Educação para a “juventude mais abandonada”.

Dom Mário Clemente Neto, membro da Congregação do Espírito Santo, escreveu um e-mail para os colegas: Padre Giovanni Van de Laar, Professora Yedda Machado Borges, Padre Geraldo Hogervorst, Padre Eduardo Miranda, Advogado Dr. Divaldo Roque de Meira, no dia 30 de janeiro de 2012. Ele relata ter descoberto que “hoje o Colégio estaria sendo administrado simplesmente como uma empresa comercial, visando lucro com o controle administrativo feito por meio de documentos e atas de assembleias fictícias, em que os cargos [assentos] da Associação são todos ocupados dentro da mesma família” [a família de Márcio Augusto Nogueira dos Santos – o Marcinho]. O religioso continua a descrever sua inquietação e relata que “em 2011, o Dr. Guaracy Nogueira o surpreendeu com preocupação pelo fato de o Padre José ter sempre resistido à transformação do colégio em Fundação, o que fez Dom Mário ficar realmente (sic) surpreso, pois toda a negociação de transferência do Colégio para o grupo que lá está ‘era condicionada a isto!’ (sic)”.
Segundo o website ‘econodata.com.br/lista-empresas/Minas Gerais/Itaúna’, o faturamento anual estimado do Colégio Sant’Ana gira hoje entre 20 e 50 milhões de reais, com algo entre 101 e 150 funcionários.

A Câmara Municipal de Itaúna programou realizar, na próxima terça-feira, uma sessão solene de celebração ao centenário da morte de Manoel Gonçalves de Sousa Moreira. Uma das entidades homenageadas convidada é o Colégio Sant’Ana. O evento pode ser uma oportunidade de os vereadores colocarem a História de Itaúna a serviço do bem atual da população, em lugar de simplesmente afagar vaidades de algum homenageado. Vaidades, estas, sustentadas às custas de filantropia e trabalho feitos com as mãos de outros. É um típico caso do homenageado que faz graça com chapéu alheio. Um exemplo: Itaúna terá motivos fortes para aplaudir caso compareçam como representantes do Colégio, a Professora Yedda de Paula Machado Borges e o Padre Giovani Van Der Lar. Ambos responsáveis pelo espírito de responsabilidade social que criou e gestou a escola durante décadas, mas que assim como eles, foi colocado para fora da instituição sem que a atual administração desse qualquer explicação. Dona Yedda Machado Borges, filha do histórico Dr. Ovídio Machado, foi uma das primeiras professoras – começou a lecionar lá em 1947. Trabalhou gratuitamente quando os alunos precisavam estudar, mas o orçamento era curto. Hoje, com quase cem anos de idade, mora na Praça Doutor Augusto Gonçalves e tem enorme alegria em contar os bastidores da escola que ajudou a construir em favor da cidade de Itaúna. Padre Giovani Van Der Lar chegou ao Sant’Ana junto com os padres holandeses e batalhou pela responsabilidade social do lugar. Fora do Colégio, há mais de trinta anos, se dedica diuturnamente a um centro de obras sociais educacionais que ele criou no Bairro Piedade e atende filantropicamente, primordialmente com seu esforço, a dezenas de crianças do Morada Nova.

Para as crianças pobres dos bairros da cidade, de nada adianta promover discursos chapa-branca em seguidas homenagens a Manoel Gonçalves de Sousa Moreira. É preciso abrirmos a boca para instigar reflexões sobre o que ainda pode ser cumprido da vontade testamentária do benemérito. Isso faz jus à altura da memória de quem é considerado o maior cidadão itaunense de todos os tempos. Se por um lado a herança de Manoelzinho foi sendo dilapidada por aqueles que não otimizaram seu dinheiro a favor do nobre espírito social e filantrópico que ele registrou em testamento, por outro ainda é possível nos unirmos com o apoio da Câmara dos Vereadores e da Prefeitura para homenagear gente viva que traduza com suas ações o verdadeiro significado do centenário de Manoelzinho. Com isso, adquirimos uma chance de sensibilizar aqueles que ainda controlam os frutos institucionais existentes viabilizados pela famosa herança, mas que ainda têm muito a cumprir em favor do município.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.


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