Discurso que proferi na Sessão Solene da Câmara dos Vereadores por ocasião da Comenda Manoel Gonçalves de Sousa Moreira

Por Publicado em:31/07/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 72

“Sófocles, em Antígona, afirma com rara sabedoria: muitas são as maravilhas e nenhuma é mais maravilhosa do que o homem”. Registrou para a história de nossa cidade, um dos discursos mais emblemáticos de Itaúna. Hoje, aqui nesta cerimônia, muitas são as maravilhas incumbidas às instituições homenageadas, mas nenhuma é mais maravilhosa do que o homem Manoel Gonçalves de Sousa Moreira e sua obra – que ultrapassa majoritariamente o dinheiro de sua herança.
Hoje, Vossas Excelências abriram as portas para um novo capítulo da História de Manoelzinho, ao criarem esta Comenda. Mais do que admirar o passado, hoje foi dada a chance de se criar um novo futuro. Longe de mim, discorrer agora sobre lugares-comuns e fatos amplamente conhecidos a respeito de cada uma das instituições das quais os senhores homenageados são responsáveis. Discorrer detalhadamente sobre os belíssimos registros anotados por nossos historiadores seria algo muito mais bem feito por gente estudiosa de nossa cidade. Sou apenas um entusiasta apaixonado por Itaúna. Quando muito, tentarei relacionar alguns fatos da obra de Manoel Gonçalves de Sousa ao que ainda podemos fazer por sua memória.

Imaginem os senhores, hipoteticamente, que suas vidas foram dedicadas à construção de uma casa. Um lugar para que suas próximas gerações de descendentes pudessem morar. Na sua hora derradeira, no momento de sua morte, vê-se que sua obra viabilizou um bom abrigo, mas ainda tem partes importantes inacabadas. Tempos depois de sua partida, seus filhos se reúnem com uma certa quantidade de energia e dinheiro. Podem decidir em gastar todos seus recursos apenas com homenagens e reconhecimento a seu trabalho ou aproveitar suas mobilizações para terminar de construir o telhado ou reformular a extensão do dormitório, em vista do inesperado número de novos netos. Estou convicto; todos nós concordamos em pegar a obra do ponto em que Manoelzinho a fez chegar e levarmos juntos, para mais adiante, onde nossa gente carente, em pleno 2020, ainda pode usufruir da Saúde e, sobretudo, da Educação, que o nobre espólio incutiu no fortalecimento de nossa civilidade, de nossa democracia municipal.

Se minha palavra aqui serve ao objetivo de relacionar o trabalho de suas instituições à memória de Manoelzinho – conforme me incumbiu nosso Presidente Alexandre Campos, qual a melhor maneira de fazê-lo, senão trazendo seu espírito de benemerência para a reflexão sobre como sua obra ainda pode avançar. A esta altura, é preciso cumprimentarmos efusivamente a aprovação desta Comenda por Vossas Excelências, pois ela nos dá a chance de refletir. Não se trata mais de como nossos redatores itaunenses vão superar um ao outro com o discurso mais belo, a publicação de Facebook de maior ego e dor de cotovelo ou a esperada eulogia ao criador de nosso hospital. Trata-se sim de descobrirmos juntos como evoluirmos com a obra dele, nos dias de hoje, cem anos após sua morte. Trata-se de nos colocarmos a serviço dela, em vez de oportunisticamente a posicionarmos a serviço de quem discursa sobre ela.
Afinal: o que torna um homem grande? O que torna nosso benemérito eterno, se outras tantas pessoas também já contribuíram para instituições públicas de Itaúna e não se tornaram sequer a sombra dele?
Itaúna é devedora de Manoel Gonçalves de Sousa Moreira em razão de seu desenvolvimento sócio-político, muito mais do que é pela materialidade da filantropia que seu dinheiro gerou. O que realmente enriqueceu nossa Itaúna foi a cultura de participação cívica que o gesto de Manoelzinho deixou. Para ficarmos apenas em um exemplo mais atual, é motivo de orgulho vermos empresários itaunenses se mobilizarem na iniciativa capitaneada pelo CDL/CDE, que angariou mais de dois milhões de reais para auxiliar na estrutura de socorro às vítimas itaunenses do COVID19. Pode parecer trivial, mas isso não é facilmente encontrado em qualquer cidade do país.

Robert David Putnam é um cientista político norte-americano, professor da Universidade de Harvard a quem eu convido hoje, ao raciocínio, para nos ajudar a entender a contribuição de nosso Manoel ao município. Segundo o mestre, índices mais elevados de participação cívica favorecem o desenvolvimento econômico, tornam estruturas de governo mais eficazes e, portanto, fortalecem a democracia. O poder econômico bruto despejado dentro de uma comunidade, entretanto, não tem relação direta com a capacidade cívica. O brasileiro Antônio Sérgio de Araújo Fernandes vai ainda mais fundo: ele explica que a ausência deste espírito associativo cívico, no longo prazo, provoca estagnação econômica e política. Quando Manoel Gonçalves de Sousa Moreira injetou em nossa Itaúna quase cem milhões de reais, em valores atualizados, na construção de instituições filantrópicas – ele criou uma explosão de sentimento cooperativo inconsciente de toda a nossa pequena sociedade. De acordo com o precursor do pensamento de Putnam, o famoso pensador francês Alexis de Tocquevile: a influência exercida pela Companhia de Tecidos Santanese, pela Companhia Industrial Itaunense, pela Casa de Caridade, pelo Orfanato, pela Escola Normal e pelo Colégio Santana no comportamento de nossos sucessivos governos municipais e nas suas práticas políticas é tão significativa que interferiu na formação de nossa identidade como itaunenses. Também moldou o exercício de poder por nossas gerações de representantes e o planejamento estratégico de nossa política.

O escritor americano chama esta riqueza de possibilidades associativas, entre os cidadãos itaunenses, criadas pela herança de Manoelzinho, de Capital Social. Com as nossas lentes de entendimento ajustadas neste conceito, convido os senhores a me ajudarem na definição do que é esta atitude cívica que identifico com o verdadeiro legado de Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, em cada uma das instituições criadas por ele. Participação, maior igualdade política, solidariedade, confiança, tolerância e estruturas sociais de cooperação serão nossas “lanternas de Diógenes” na busca pela honestidade intelectual que dá sentido a esta comenda, despe esta manifestação de hoje de vaidades tolas, superficiais e direciona nossa reflexão. Mais especificamente para a convicção de Emerson, quando falamos da formação de líderes itaunenses influenciados pela benemerência. Estamos aqui reunidos porque a procura do grande homem é o sonho da mocidade e a mais séria preocupação da idade adulta. Mais uma vez, registro créditos para o emblemático discurso de nossa história municipal em que me inspirei poeticamente.

Sigamos, pois, com a tentativa necessária de uma breve contextualização factual não enfadonha, amparada bibliograficamente pelas obras de Guaracy de Castro Nogueira, José Waldemar Teixeira de Mello e por documentos cartoriais.
Filho de Ana Joaquina de Jesus e do quase homônimo pai Manoel José de Sousa Moreira – razão pela qual o nosso herói tem seu nome popularizado no diminutivo. Nasceu em 1851, nesta nossa terra, quando ainda tínhamos o nome de Sant’Ana do São João Acima. Era parte de uma família composta por mais dez irmãos. Quase todos precursores de famílias tradicionais em Itaúna, a exemplo de Dr. Augusto Gonçalves, Virgílio Gonçalves de Sousa, Teresa Gonçalves Nogueira – casada com Josias Nogueira Machado, Anna Gonçalves de Sousa Lima – casada com João de Cerqueira Lima. Começou a enricar no empório comercial que seu pai abriu em tocou com a labuta conjunta dos filhos – “Casa Moreira & Filhos”.

Creio que o ambiente cooperativo desta época, em lugar de uma ideologia “self made man” tem enorme influência nas posturas que Manoelzinho adotaria em sua caminhada posterior. Ele tinha desgosto por posturas mais individualistas, como a que gerou sua desavença com o cunhado João de Cerqueira Lima – episódio criador da Companhia Industrial Itaunense. Mais do que isso, nosso Manoel se educou em sala de aula na qual ele frequentava levando de casa um toco de madeira como assento e uma garrafa d’água. Tornou-se homem culto, aguerrido e, para além de empresário, tinha gosto pelo exercício do jornalismo.
Fundou a Companhia de Tecidos Santanense junto com o pai, após os anos que ganharam dinheiro no empório. Na verdade, segundo a historiografia itaunense, estavam criando o berço socioeconômico de nossa cidade. Da Santanense, após divergirem com ele, saíram os fundadores da Companhia Industrial Itaunense. Também foi de lá que floresceu a fortuna da herança que o benemérito deixaria para sua obra filantrópica pós-morte.
Mais do que criar empresas, Manoelzinho instituiu uma cultura empresarial criada no seio familiar. Até o século XX, este conceito ainda acompanhou a diretoria de sua fábrica e se fortaleceu na sinergia da convivência entre irmãos, primos, tios, pais e filhos. Isso para não mencionar todas as centenas de famílias que se consolidaram dentro da empresa.

Morto em 20 de julho de 1920, sem filhos, Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, deixou viúva Maria Gonçalves de Sousa Moreira e um testamento em que determinava a criação de uma Casa de Caridade para atender à Saúde do município – em especial, a da gente mais necessitada. Não registrou nenhum encaminhamento financeiro para instituição de ensino. Contudo, fez constar que a instituição seria administrada pela Câmara Municipal de Itaúna e assim deu autonomia para que a vontade política de nossa pujante comunidade associativa criasse a brecha legal (por meio da Lei Municipal 127, de 8 de setembro de 1920) para investirem parte da fortuna no financiamento dos terrenos e estrutura educacional da Escola Normal e do Colégio Sant’Ana. Do ponto de vista prático, Itaúna – a proprietária moral de ambos – nos urge a voltarmos nossa atenção para o aumento da qualidade do ensino no Colégio Estadual e para a democratização filantrópica no Colégio Sant’Ana. Já imaginaram uma parceria entre elas, em que Sant’Ana possa incrementar o ensino da antiga Escola Normal e a Colégio Estadual possa inspirar os atuais administradores do Sant’Ana a resgatarem seu espírito filantrópico?
Paralelamente, Dona Maria Gonçalves de Souza Moreira - a Dona Cota -, viúva do Manoelzinho, destinou herança vultosa para “proteger, moral e materialmente, menores desamparados, de preferência do sexo feminino, com especialidade, os naturais e residentes na cidade de Itaúna. A 6 de dezembro de 1948. Não menos distinta foi a seguida doação testamentária da irmã de Dona Cota, Dona Tereza Gonçalves de Souza. Esta, pouco mais de um ano depois, seguiu o exemplo altruísta e deixou boa monta; entre o imóvel número 470 da Avenida Getúlio Vargas e ações e apólices de empresas variadas.
O orfanato, assim como o hospital, recebeu muito apoio do espólio de nosso Manoel. Em edição do Estado de Minas de quarta-feira, 19 de março de 1949, o Dr. José Luiz Guimarães descreveu o lugar como “instituição arquimilionária, cuja renda (juros) basta para edificar os arranha-céus ora em construção”. Mais do que uma simples creche, do que um abrigo, o Orfanato de Itaúna foi sonhado como fonte de cidadania; para quem mal entende conceitos sociais simples - normalmente ensinados no seio familiar, ou seja no exato lugar que nunca existiu para grande parte das crianças cuidadas pela Sociedade São Vicente de Paula. Do ponto de vista prático, será que haveria maior alento, caso garantíssemos em estatuto, um olhar exigente para que sempre houvesse a atualização de todos os alugueres recebidos dos diversos imóveis da Sociedade?

Por fim, como guardião de todo registro sócio-político do legado de Manoel Gonçalves de Sousa Moreira e as instituições que ele criou está o Instituto Maria de Castro, arduamente criado pelo saudoso Dr. Guaracy de Castro Nogueira e hoje aqui representado por seu filho, seu vice-presidente, Alexandre José Gonçalves Nogueira – a quem carinhosamente cumprimento. Neste reconhecido acervo, também é possível enxergar como a inspiração da obra de Manoelzinho poderia, cada vez mais, garantir o sonho de Guaracy e crescentemente garantir o acesso da população itaunense a suas estantes.
Manoelzinho criou um universo de razões para a comunidade itaunense se mobilizar em torno de causas nobres. O efeito político disso é o sentimento de pertencimento à sociedade que preenche nossas fronteiras municipais. É esta relação de pertencimento – para com a terra e a coisa pública –, que faz com que os habitantes, em vez de esperar pelo governo, se associem e cooperem entre si, para resolver seus problemas comuns. Tocqueville encontrou naquilo que Putnam chamou de Capital Social uma forma de inserir os cidadãos em normas de reciprocidade e de confiança generalizadas, facilitando padrões de ação em comum, algo bastante condizente com sua afirmação de que “os sentimentos e as ideias não se renovam, o coração não cresce e o espírito não se desenvolve, a não ser pela ação recíproca dos homens uns sobre os outros”.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.


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