Emanuel Braz de Matos: o inefável. Prestenção

Por Publicado em:10/10/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 115

Este artigo deveria ter sido escrito na semana passada, quando Emanuel Braz de Matos, ainda vivo, o leria e – como de costume – seria o primeiro a me enviar um comentário, na madrugada de sexta para sábado. Ele era assim. Primeiro na memória de tantos itaunenses, quando o assunto é a leveza de uma das presenças mais marcantes da história de nossa jovem Itaúna. Se você não teve a sorte de conhecê-lo, é provável que já tenha usufruído indiretamente da longa corrente de amigos, valores e reflexões que ele deixou. Emanuel não cabe numa na descrição de um texto, em razão da habilidade irrequieta, forte e encantadora de se relacionar. Por sorte, o dicionário arranjou uma palavra para batizar essa característica. Hoje, mais do que podermos, nós precisamos tratar de alguém inefável.
Falar do Emanuel é importante para Itaúna. Além de ser alentador para nós que usufruímos de sua companhia. Mas é mais importante para a cidade. Ele é uma imagem daquilo que não podemos nos esquecer e de tudo que nos remete ao nosso gosto pela terrinha que nos esforçamos em cultivar. Este texto é mais do que um plangor saudoso. Aqui espero registrar a lembrança do que não podemos deixar de ser, como povo itaunense.
Como bom filho de Sant’Ana do São João Acima, Emanuel coleciona as características de nosso povo. Primogênito dos doze filhos de Lauro do Jubito e de Dona Nídia Braz de Matos. Depois dele vieram: Maria do Carmo, Regina Célia, José Lúcio, Ângelo, Rosa Míriam, Fábio Dimas, Lauro Júnior, Adalgisa, Teresa Cristina, Gláucia Helena e Rogério. Entedia bem o valor do seio familiar, lutava por protegê-lo e, não por acaso, inaugurou a descendência de uma das famílias mais tradicionais de nossa cidade. Gostava de juntar todos, festejar a vida e agregar mais amigos, além dos que ele cultivava dentro da própria parentada. De preferência molhando a palavra com seu “vermeião”, o Campari. Era casado com Ilsa Amélia de Araújo Matos, pai de Daniel, Samuel e Raquel.
Era saudosista e prezava pelas memórias de seu povo. Sabia contar história sobre quase qualquer pessoa da cidade. Gostava de contar um causo de quando primeiro começamos a conviver. Motivo de trauma dele, dizia o amigo. Eu não tinha mais do que sete anos. Narrava sobre o aperitivo de camarões que ele e meu pai deveriam degustar, num destes réveillons, da década de 80, em Marataízes. Meu irmão mais novo, hoje comandante Corradi, e eu devoramos o trem, famintos pelo almoço tardio de uma tarde na praia. Ria sempre falando que nunca mais olhou para camarões com a mesma trivialidade blasé de um tira-gosto. Desde então, protegia o prato cuidadosamente em todos os bares, e festas de família, que frequentou pelo resto da vida.
Grande professor de vida, não deixava de nos compartilhar reflexões. Escreveu o seguinte, há poucos anos. “Tudo passa depressa demais. Complicamos tudo, cheio de frescuras, de mágoas, de ciúmes, de ressentimentos… Tudo é tão simples. Ninguém pode nos fazer infeliz se não deixarmos. Tudo está no nosso pensamento. (...) O tempo é muito curto. Só tenho o agora, quero curti-lo, vive-lo intensamente, dançar, cantar, tocar um violãozinho, amar, beijar, ter prazeres diversos, ter boas contrações dos músculos pélvicos… Não ligo mais se as pessoas falam que sou meio doidão, ou que sou isso ou aquilo. ‘Tô nem aí’… É como o Stanislau Ponte Preta transliterou na mesma língua numa linguagem mais clássica: ‘Pouco se me dá se a onagra claudique, o que me apraz é acicatá-la’.
Era ressabiado. Criava celebrações à vida com a mesma velocidade que se pegava a filosofar. Talvez de forma tão assertiva, que foi capaz de nos responder o que diria, uma semana depois de sua repentina partida. “Fiquei chocado quando acordei e vi no zap zap a mensagem informando que o meu amigo e colega de profissão (...) havia morrido de infarto fulminante (...). Até onde eu sabia, estava em plena forma, totalmente ereto, esbelto e em perfeita saúde. Chocou-me” – escreveu há pouco tempo, o próprio Emanuel sobre um amigo. E continuou: “me dei conta de que dona morte estava chegando muito perto. Eu, hein! Prefiro envelhecer a morrer. Lembrei-me do meu pai, grande gozador, que gostava de dizer: “gente que nunca morreu tá morrendo”.
Pois é, saudoso Emanuel: seu legado de autenticidade, religiosidade, família, amizade, simplicidade não morre. Vamos tentar preencher o buraco que você deixa, com os bons exemplos e reflexões que você nos instigou a imortalizar. Coisa que não envelhece, tampouco morre. Leve um abraço para seu padrinho, por você sempre lembrado, o meu vovô Guaracy. Até um futuro, véi.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.


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