AS NOVA S PLACAS MUDAS

Por Publicado em:03/09/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 75

Dia desses, indo pra Confins, reparei a placa do carro à frente. Estava lá: Bom Jesus do Galho. No ato, liguei pra minha mãe, filha daquela terra! Ela ficou feliz. Eu nunca tinha visto um carro de Bom Jesus e esse contato colocou toda uma região em cena: Caratinga, São Pedro dos Ferros, Ponte Nova... Terras distantes cuja simples menção faz voar a imaginação dos que têm a curiosidade do viajante. Placas de carros carregam esse elixir. Outro dia, na Silva Jardim, vi um automóvel de Belém do Pará e fiquei imaginando os lugares por onde ele tinha passado... as paradas quase desertas, os povoados de beleza singela, os cafés com
queijo... E onde não tivesse queijo, o que seria? O outro lado da moeda também é rico de sentimentos. Quando você está noutra cidade e vê um carro da sua, logo se lembra da terrinha... o sentimento de pertencer a uma tribo se apossa de você. E se isso acontece bem longe de casa, aí sim, ficamos orgulhosos como se fosse o tempo das caravelas e tivéssemos conquistado um novo continente!

Mas, com a troca das placas dos veículos para o padrão do Mercosul, essa magia vai acabar. Até entendo a lógica da mudança, mas o visual precisaria mesmo ser único? Breve, não haverá Rio Branco, nem Acre, não haverá mais Palmas e nem Quixeramobim. Se Minas vai ficar invisível, o que será
de Papagaios? Tudo estará reduzido a um Brasil genérico. Gosto de imaginar aqueles lugares impressos nas placas. Muitos trazem lembranças e saudades: são terras queridas, cenários de fatos marcantes das nossas vidas. Ou dos outros. Quantas vezes você vê uma placa e exclama: “Ó, terra de fulano!”. De agora pra frente, haverá um flash a menos para te despertar, um sinal a menos para ativar a sua memória. São ausências cujas consequências ainda não medimos, mas que fazem parte das transformações da humanidade, no seu caminho rumo ao impessoal e à morte da subjetividade. No curto prazo há um considerável prejuízo cultural com a simplificação: não vamos mais dar o testemunho direto da nossa existência peculiar no mapa, coisa que, reconheço, já está ameaçada há muito, neste país da amnésia.

Entretanto nem toda mudança pode ser atribuída unicamente ao “progresso”, e o exemplo dos americanos é admirável: eles exibem o nome do Estado e às vezes da cidade nas placas dos carros. Ao contrário de um padrão visual único, empregam imagens de fundo, como cactos no Arizona e florestas em Idaho. Maryland tem um lembrete: “historic” e o Hawai apresenta um arco-íris. Arkansas é o “natural state”, a Georgia, o estado do pêssego e na placa de Louisiana tem um pelicano. O estado da Virginia é o campeão de opções, oferendo cerca de 200 modelos de placas. Assim, personalizados, os veículos circulam pelo país como um cartão de visitas, como um convite. Aqui, seremos ilustres desconhecidos, para o bem e para o mal. Como a origem dos carros não será revelada, forasteiros circulando pela sua rua não serão mais percebidos e nem merecedores de uma atenção especial, seja em termos de segurança ou de hospitalidade. Precisa de uma informação?
Perguntamos quando percebemos alguém perdido. A partir de agora, esse será apenas mais um veículo “do Brasil”, um objeto vagamente identificado.

Como disse a urbanista Jane Jacobs nos já distantes anos 60, as ruas devem ter olhos, mas, com a padronização das placas dos veículos, além dos carros serem quase todos brancos, cinzas ou pretos, eles também serão pardos. As cidades, como está emblematicamente fixado no nome “Almenara”, são como um farol. Apagar essa marca da paisagem, das ruas e das estradas é uma perda sutil, mas de modo algum irrelevante.

 

 

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Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna.