Lá estava eu esparramado sobre o confortável sofá, assistindo mais um capitulo da CPI da COVID e acompanhando, descrente, os confrontos, bate bocas descabidos, mentiras bem treinadas, fanfarrões de vários processos se posando de bons mocinhos e outros tantos mais preocupados em aparecer numa tentativa de cavar a sua reeleição em 2022. Só de calção, apesar do vento frio que entrava pela janela, me deliciava com as perguntas e, principalmente, com os argumentos utilizados pelos depoentes para responder aos seus inquisidores.

Sentindo um pouco de frio em função dos meus trajes, mas ao mesmo tempo com uma preguiça danada para buscar um edredom ou uma blusa, fui me encolhendo no sofá de couro marrom sem perder as informações que vinham da telinha.
Estava lá, num misto de tristeza e decepção com o que estava assistindo, quando ela chegou e, sem pedir licença, embocou casa a dentro e foi direta ao meu encontro, sem que eu pudesse esboçar qualquer reação. Fazia um ano que ela me abandonara sem se despedir, me deixando com a boca amarga e seca, o corpo mais magro e a cara chupada de tanta consumição.
Sem qualquer cerimônia, se apossou de mim ali mesmo, naquele lugar desprotegido e indiscreto e até desconfortável em função do intuito com que veio, com as janelas escancaradas para os prédios vizinhos, repletos de rapazes e moças afeitos por qualquer novidade.

Não adiantou nada as minhas reações e resmungos e dali mesmo ela me levou para a cama e, que nem uma gata no cio, se apossou completamente do meu frágil corpo. Foram três dias e três noites de total destempero, onde ela, insaciável após doze meses de ausência, me consumia e eu, entre delírios febris, suspiros e calafrios de dor e prazer e sem forças para esboçar qualquer reação, me acomodava com aquela situação, sem vontade nem mesmo para trocar os lençóis e cobertores já amarrotados e impregnados de suor.
Desta vez dava a impressão que ela viera para ficar, se instalar ali definitivamente, de mala e cuia ao meu lado, tamanha era a sua pressa e ganância em se apossar do meu corpo já debilitado, num desejo quase que insaciável. No amanhecer do quarto dia, quando acordei com os primeiros raios de sol entrando pelas frestas da janela, ela já tinha partido.
Como das últimas vezes, nos últimos cinco ou seis anos, foi embora sem ao menos se despedir. Me abandonou naquele quarto escuro em meio a lençóis e cobertores desalinhados, amarrotados e úmidos de suor, de tanto mexe-mexe, estica e puxa e rala e rola de braços e pernas trôpegas e cansados de três dias e três noites passados juntos.

Pelo quarto escuro, pude observar garrafas e copos servidos, roupas espalhadas sobre os móveis e portas de armários indicavam o destempero daqueles três dias. Mas, felizmente, pude me levantar e, ainda fraco, mal, mal me recordando das palavras dos nossos excelentíssimos senadores e depoentes, mas ainda com a boca seca e amarga tal qual a última vez que ela me deixou, me dirigi cambaleando rumo ao banheiro. Êta gripezinha fedazunha esta que me pego, sô...

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Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna.