Um conto coreano

Por Publicado em:01/10/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 139

Lá pelo ano 208 DC, o filho pequeno e a esposa do general chinês Liu Bei foram raptados durante uma guerra travada no que é hoje a península coreana. Quando ele conseguiu resgatá-los ficou muito feliz, mas no momento seguinte se enfureceu diante da lembrança de que o resgate do filho quase tinha custado a vida de um grande amigo e importante colaborador.
A situação gerou um dilema existencial e filosófico: deixar morrer o próprio filho e poupar o amigo, ou vice versa?
1200 anos depois, dessa vez hipoteticamente, um rei também chinês foi colocado diante do dilema de Liu Bei: o que ele faria? Salvaria o amigo ou o filho? O que você faria, caro leitor?
O soberano silenciou por alguns instantes e respondeu que não achava justo sacrificar qualquer um dos dois e que se empenharia para encontrar uma saída.
Esta é a questão central! A importância da busca, o esforço para encontrar uma solução melhor, mais plena e satisfatória, em oposição à tomada de decisões precipitadas, não suficientemente embasadas, regidas pelo medo ou pelo ódio.
Não há garantia de sucesso quando nos debruçamos sobre um problema, mas a busca nos permite rever valores, reordenar prioridades, questionar hábitos e costumes. Nesse processo a solução pode surgir num movimento que parece mágica, mas que é invenção, coisa do Homem. Entretanto, independente do sucesso, o fundamental é que crescemos durante a procura.
Hoje no Brasil, o radicalismo politico se derrama sobre a esfera social, familiar, profissional. Querem nos colocar entre dois, e apenas dois, futuros possíveis, nos forçando a decidir por um lado, ou mais frequentemente, contra um dos lados.
Sim, falo do embate entre o bolsonarismo e o lulopetismo, grupos aparentemente opostos, mas que se igualam. Seja pela adoção da violência como ação política, seja pela busca da destruição do adversário, e não apenas da sua derrota, seja pela ambição de se eternizarem no poder, que os leva a sabotar a democracia, seja pelo desperdício desavergonhado do dinheiro público. São iguais, também, no uso que fazem da mentira como arma, começando pelos títulos enganosos com que direita e esquerda se identificam: conservadores e progressistas.
Não existe dúvida de que filho é filho e amigo é amigo, o que torna o dilema chinês em princípio honesto, pois os termos têm os nomes daquilo que de fato são. No entanto nem Lula é mesmo progressista no sentido evolucionário, pois foca apenas no lado material da vida, e nem Bolsonaro é conservador, no sentido de preservar a estabilidade e a continuidade das instituições. Um se diz progressista e quer começar do tudo, do zero (“nunca antes neste país”): qual ação bem-sucedida, no progresso humano, começou assim? O outro se diz conservador, mas faz um governo de destruição aleatória das instituições e não de aprimoramento: onde e quando essa atitude deu certo?
Nenhum dos dois possui um norte moral ao qual se submeter e no fundo querem mesmo é limpar a área para fazer o que bem entenderem, usando os recursos da nação em benefício próprio.
Como diz um ditado oriental, aquilo que não veio pela razão não irá embora pela razão. O fanatismo, seja de esquerda ou de direita, é uma disfunção que acomete os humanos com frequência e a sua cura está mais na categoria do exorcismo, dos rituais de purificação da alma e da psiquiatria, do que no debate.
No momento não há uma alternativa clara aos radicais de esquerda e de direita e a polarização interessa aos dois. É por isso mesmo que, ao invés de perder as estribeiras e abraçar o “menos pior”, devemos ter paciência e garimpar qualidades em novas forças, em novos nomes.
Qualquer dos extremos será nocivo ao nosso futuro, portanto cabe aos que ainda possuem sanidade, que são a maioria dos eleitores, ponderar e recolocar o Brasil num caminho virtuoso.

*arquiteto e urbanista

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Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna.