Adeste, Fidelis!

Por Publicado em:26/11/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 840

Quando criança, eu costumava dormir aos sábados na casa da minha avó e no domingo íamos à missa bem cedinho, às seis. Me lembro bem dos invernos. Ainda escuro, com o frio cortante, entrávamos na nave da igreja, em meio a uma penumbra misteriosa. No decorrer da missa, o sol ia despontando nos vitrais atrás do altar e era uma epifania! A celebração em latim, as músicas solenes e a magia da luz teciam um ambiente que nos levava do espaço terreno para um mundo de reflexões e júbilo.
Na adolescência tive que reaprender a missa, em português e a sensação de empobrecimento foi inevitável. Com o tempo, acabei me afastando daquele contexto que havia se tornado unidimensional pra mim: a complexidade tinha sido perdida.
Aos poucos, me aproximei mais e mais do Deus da Natureza e do Universo, deixando de lado o outro Deus, que agora me parecia ser só dos padres. De tempos em tempos, eu retornava e a coisa piorava cada vez mais. Primeiro, foi o português confundindo o sagrado e o banal. Depois as músicas pouco inspiradoras, executadas com vaidade. Aos poucos a carência de conteúdo das homilias.
E então vieram as palmas.
Confesso nunca ter analisado a fundo os efeitos destrutivos dessas mudanças, iniciadas por Paulo VI, em 1968, no Concílio Vaticano II. Mas recentemente, com a decisão do Papa Francisco de retomar a proibição das missas em latim, contrariando os gestos de abertura esboçados por Bento XVI, algumas iluminações começaram a pipocar aqui e ali, na imprensa mundial e em grupos católicos.

Foi quando percebi que o meu desconforto com a Nova Missa não era efeito de saudosismo. A questão era mais profunda. Como disse Michael Dougherty, um pensador lúcido, “... para ser um bom cristão hoje, é preciso deixar de ser cristão!”. Ele argumenta que as mudanças impostas pelo Vaticano II foram tão profundas que transformaram o Catolicismo numa outra fé, diferente da anterior, diferente daquela na qual muitos de nós fomos criados.
Dougherty aponta um fato importante: o celebrante não mais se volta para o altar. Fica de frente para a assembleia, o que aparentemente é um sinal união com os fiéis, mas que na verdade altera a estrutura do espaço religioso, transformando a natureza do encontro.
Antes, o sacerdote se colocava como todos, diante de Deus. Ficava de frente para o altar, para a cruz e para o tabernáculo, e não de costas. Hoje, o novo ritual nos coloca ao redor de uma mesa vazia: a realidade concreta se torna o nosso foco e a nossa meta.
A Nova Missa não é mais sobre o sacrifício do Cristo, mas sobre o grande feito de nos reunirmos, apostolicamente. É sobre a nossa piedade, o nosso amor e a excelência do nosso grupo de escolhidos.
Compondo o novo ambiente, nem é preciso mais cantar ou rezar, nem pedir perdão ou louvar: terceirizamos o arrependimento e o júbilo, que são vocalizados por uns poucos, em nosso nome.
Parece que terceirizamos o discernimento também. É grande o número de católicos e, de modo geral, de cristãos, que afronta a civilização ocidental, produto da ética cristã. Anunciam a violência como salvação, enaltecem o individualismo e zombam da fraternidade. Até membros do clero estão nessa, defendendo um liberalismo ultrapassado, que desconhece a solidariedade.

Colocando-se ao lado de um messias estúpido e de um juiz nebuloso, muitos agem como se o combate a um comunismo imaginário e a uma corrupção praticada também pelos que dizem querer extirpá-la justificasse perpetuar este governo autoritário, desumano e sem rumo, que compromete o futuro de todos e, em especial, dos mais pobres.
O Cristianismo surgiu como aprimoramento. É tempo dos cristãos e em particular do seu grupo mais denso, os católicos, repensarem os seus valores e decidirem se permanecerão nesta missão suicida em que se meteram, dando as mãos ao imoral sem perceber que assim abraçam também as imoralidades, ou se vão renovar o seu compromisso com os ensinamentos de Jesus.

A possibilidade de fazer ambas as coisas é pura ilusão.

*Sérgio Machado é arquiteto-urbanista, mestre em
Arquitetura e Urbanismo pela UFMG e professor.

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Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna.