O paraquedista

Por Publicado em:05/07/2019 | Atualizado em:29/11/-0001 224

- “Luiz Augusto! Ô, Luiz Augusto! Desce daí, menino! Você vai acabar se esborrachando no chão e se machucando, pulando do alto deste muro só com um guarda-chuva na mão. Onde já se viu!”
- “Tô brincando de paraquedista, minha mãe!” - exclamou o endiabrado menino enquanto, num pulo só, se lançava de cima do muro do quintal de sua casa, segurando o velho guarda chuva do pai, aberto como se fosse um paraquedas. E assim as semanas, meses e anos foram passando e o Luizinho, como era conhecido por todos, vivia saltando de cima do armário do quarto, do alto da escada, do muro do vizinho ou do frondoso pé de abacate do fundo do quintal, utilizando os mais diversos apetrechos, como lençóis, cobertores, caixas de papelão ou guarda-chuva, para amortecer a sua queda.
- “Quero ser paraquedista, minha mãe! Custe o que custar!”
A paixão pela atividade ocorreu após ele ver um documentário sobre o assunto na matinê de Domingo no Cine Rex do Ricardo do Crispim, antes do início do filme do Tarzan, o Rei das Selvas. A partir daí, não deu mais sossego aos seus familiares, sendo que em algumas ocasiões costumava chegar em casa com os joelhos, braços e outras partes do corpo esfolados pelos tombos que levava em suas estripulias de saltar de tudo que era lugar sem a utilização de equipamentos adequados. Ao completar 18 anos, a contra gosto dos pais, alistou-se na Aeronáutica e foi cursar paraquedismo no Rio de Janeiro. Foram três anos de curso e sempre em suas folgas vinha para Itaúna, onde narrava com empolgação as suas façanhas para os amigos e sempre avisando que, quando completasse o curso, iria fazer o salto inaugural em Itaúna. Já havia conversado com o seu superior imediato e estava tudo acertado.
- “O primeiro pulo com o canudo na mão será em Itaúna!” - exclamava eufórico para o grupo de amigos.
Finalmente o dia chegou e o recruta, envergando o garboso uniforme da Aeronáutica, foi recebido por uma legião de amigos ao desembarcar do ônibus da Viação Itaúna na Estação Rodoviária. O salto estava agendado para o final de semana e ele pegaria um avião em Belo Horizonte e faria um salto sobre o Bairro Garcias, que apresentava as melhores condições de segurança para o pouso. No dia e horário agendado, o possante avião da Força Aérea Brasileira sobrevoou a cidade e se dirigiu para o local marcado, onde uma multidão, agitando faixas, cartazes e bandeiras, aguardava ansiosa a chegada ao solo do novo herói itaunense.
Após dar três voltas sobre o olhar ansioso da multidão esparramada pelos bares, praças e ruas do Bairro Garcias – que cantava aos berros: “Luizinho! Cadê você! Eu vim aqui para te ver... Luizinho! Cadê você! Eu vim aqui para te ver... Luizinho! Cadê você ...” –, o avião abriu a porta lateral e o bravo recruta itaunense, recém-formado, meio a um silêncio total que pairou sobre o bairro naquele momento, se lançou no ar.
Após descer uns cem metros e vendo que o paraquedas principal não abria, ele seguindo as orientações do curso, puxou a cordinha do paraquedas reserva, e nada.
Assustado, pois estava seguindo todas as orientações aprendidas no curso, vendo que a velocidade de sua queda aumentava a cada segundo e tanto o paraquedas principal quanto o de reserva não funcionavam. Estava no maior desespero, quando avistou um vulto todo chamuscado, ainda com um pouco de fogo e fumaça saído do seu uniforme, com o logotipo de uma empresa de gás da região, onde ele provavelmente trabalhava, vindo em sua direção feito um foguete. Ao passar por ele todo chamuscado, o Luizinho, desesperado, gritou:
- “Você entende de paraqueeeeedas?
- “Nãooooo!” – exclamou o homem, chamuscado e ainda soltando fumaça pra tudo que era lado.
- “Eu só entendo de botijão de gás industriaaaaaaalll.......”.

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Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna.

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