O racismo em Itaúna deveria provocar gritos tão altos quanto nos EUA. Só diferentes.

Por Publicado em:05/06/2020 | Atualizado em:05/06/2020 129

Por Rafael Corradi Nogueira

 

Toda corrupção e conflito institucional duvidoso na história da Máquina Pública e Filantrópica de Itaúna pode ser relacionada à discriminação racial. No Brasil, ela vai além da cor da pele, mas tem sua raiz na Senzala. A revolta mundial ao assassinato do negro americano George Floyd precisa ser aproveitada como séria reflexão, também em Itaúna. O município tem muitos cidadãos que podem ter seu futuro redesenhado por um melhor entendimento de como itaunenses de pele escura são essenciais no futuro de uma cidade mais próspera, educativa e – sobretudo – séria. 
“Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão, um dia, em uma nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter” – registrou, para a eternidade, Martin Luther King Jr.

O conceito brasileiro de racismo submerge a cor da pele herdada de nossos ancestrais africanos ao status socioeconômico e cultural da pessoa. Diferente, a segregação racial norte-americana está forjada em um sentimento de pertencimento a grupos que pegaram em armas para criar uma identidade, ciosos de seu espaço identitário. Ambos os casos perduraram, ao longo de gerações, no subconsciente coletivo. Algo visível em grandes centros urbanos, mas ainda mais cru e gritante em pequenas cidades, de lá e daqui, a exemplo de Itaúna. Ainda que distintos, são úteis para os dois lugares algumas análises respeitadas na bibliografia internacional.
Gunnar Myrdal, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, dissertou longamente sobre o dilema entre os ideais da Sonho Americano e as realidades de discriminação racial, com todos os males que ela trouxe (An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy). Ele apontou alguns pilares para o entendimento do problema, entre os quais: o ciclo vicioso quando o preconceito cria um cenário e o cenário criado eterniza o preconceito de quem o observa; a forma como as sociedades podem evoluir ou involuir em suas instituições dependendo de como lidam com ideais de Justiça, Liberdade, Racionalidade e autodeterminação da pessoa, capaz de criar o progresso do indivíduo, de grupos, nações e até da humanidade.

No Brasil, Gilberto Freyre desenha a relação entre o negro e o branco com a racionalização que tolera o intolerável. Ele reinterpreta o conceito racial pela cultura. Romancea a relação patriarcal entre o branco da Casa Grande e o negro da Senzala. Descreve a influência do negro “na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo que se deliciam nossos sentidos (...) da negra velha que nos contou as primeiras histórias”. Mas aponta o dedo para o aspecto socioeconômico que Sérgio Buarque de Holanda tão assertivamente iria aprofundar, na posição pouco nobre que um trabalhador braçal, simbolizado pela figura de alguém de pele escura, ocupa no imaginário coletivo de nosso país.

Ou seja, as pessoas aqui discriminam movidas por um subconsciente coletivo. São silenciosamente violentas com o cidadão de traços afrodescendentes, mas o fazem apenas até descobrir que ele tem dinheiro no bolso ou esclarecimento à flor da pele.
Itaúna conta em menos dedos de uma mão o número de vereadores negros que compuseram as últimas legislaturas. Prestes a completar 119 anos, o município elegeu prefeito, apenas uma vez, um negro. Embora a cor da pele não traduza a competência ou o caráter de uma pessoa, matematicamente, estatisticamente, estes dados gritam a quantidade de bons, competentes cidadãos que foram preteridos para contribuir com o amadurecimento da democracia e das instituições da cidade em razão de não serem brancos. É evidente a desproporção de itaunenses das mais variadas etnias e a composição daqueles que participaram das grandes decisões públicas e institucionais da cidade. Obviamente, a falta de oportunidade discriminatória na Educação é ingrediente. Mas, gente de pele preta enfrenta mais dificuldade, estando em mesmo ou melhor nível do que alguém branco. Além do Poder Público, certamente as mais prementes instituições filantrópicas criadas em Itaúna também são credoras desta contribuição: Colégio Sant’Ana, Universidade de Itaúna, Hospital Manoel Gonçalves e Orfanato.

Com uma democracia mais forte e desenvolvida, corrupção e conflitos institucionais duvidosos são mais facilmente combatidos.

As Barrancas do Rio São João são formadas grandemente por portugueses e italianos. Existe um tino de self-made man nestes, que desde a chegada do fundador Gabriel da Silva Pereira, foram o motor de nossa terra. O Itaunense respeita aqueles que triunfaram em seus legítimos negócios, geraram emprego e fizeram fortuna. Mas, é no vácuo de negros participantes desta história itaunense que infelizmente está o esquecimento de que a dignidade, o valor e a capacidade de um filho de Itaúna não estão relacionados à cor de sua pele.

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Última modificação em Sexta, 05 Junho 2020 17:12

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