O preto na história de Itaúna, segundo o historiador Guaracy de Castro Nogueira. Questão fundamental para sermos mais prósperos em pleno 2020

Por Publicado em:10/06/2020 | Atualizado em:09/07/2020 162

O tratamento que Itaúna dispensou a seus filhos pretos comprometeu nossa indústria, viciou nosso desenvolvimento educacional, desvalorizou o trabalho, alimentou o patrimonialismo do município, sacrificou o pluralismo e sufocou a plena cidadania itaunense. Ainda assim, nossa cidade só pode avançar e ser compreendida sob a influência da relação de nossos ancestrais santanenses – itaunenses com cada filho da terra não-branco. Somos uma cidade de potencial econômico reprimido. Para mudar, vale lembrar a reflexão de Joaquim Nabuco, que nos ampara nessa análise: “não basta acabar com a escravidão: é preciso destruir a obra da escravidão”.
Padre José Teixeira de Camargo celebrou a primeira missa em Itaúna, na Capela Nossa Senhora Sant’Ana. Foi onde hoje está a Igreja do Rosário, em 1765, quando ainda éramos apenas uma insipiente Freguesia, que viria a ser conhecida como Sant’Ana de São João Acima. Para se ordenar em Mariana, a Igreja exigia que ele provasse “pureza de sangue”, mostrando que não era descendente de “preto, mulato ou qualquer outra nação infecta”. Esta ilustração lamentável do contexto histórico em que fomos fundados é a primeira parte de uma explicação sobre como o incremento contínuo da produtividade era impedido, nos ensina o professor Fernando Henrique Cardoso. Escravos, negros – forros ou não, compuseram uma enorme parte da raiz genealógica que originou a população itaunense. Nós. Nossa história, contudo, não permitiu a eles se integrarem socioeconomicamente, assim como o fez com cidadãos de traços brancos. Sem uma identidade clara de cidadão itaunense, mais da metade de nossos primeiros conterrâneos não compunham um potencial mercado consumidor. Tampouco um eficiente mercado produtivo.

Em 1831, o Juiz de Paz Quintiliano Lopes Cançado – ancestral de grande descendência em Itaúna, fez levantamento censitário emblemático. Concluiu que apenas 30,58% da população daqui era branca. Os demais, de traços afrodescendentes, eram classificados como mulatos, africanos, pretos, crioulos ou cabras. Do total de moradores, eram livres 62,71%. Ou seja, havia quase 40% por cento de escravos e cerca da metade da gente livre tinha pele escura. Nabuco, em diálogo com os escritos de Gilberto Freyre, nos ensina sobre como o movimento abolicionista extinguiu a condição de escravo, mas em lugar de entregar cidadania ao brasileiro preto, aprofundou uma relação patriarcal, de discriminação silenciosa, infelizmente acatada numa relação de exclusão socioeconômica romanceda. Ao longo dos últimos séculos, os negros foram preteridos em oportunidades, ainda que possuíssem competência. E nosso país, assim como Itaúna, foi preterida na chance de gozar dos bons préstimos de um contingente de gente de pele escura, que certamente possuía em seus componentes tanta gente boa como o contingente de gente de pele branca. Isso significa que a nascente economia e sociedade itaunense contava efetivamente com apenas trinta por cento de sua população na qualidade de mercado consumidor e, pior: na condição de cidadão, capaz de exercer uma posição pública de inconformação ou participação democrática.

No Brasil, a escravidão separou o preto do branco, o rico do pobre e forjou no inconsciente coletivo a associação do negro com a condição de submissão social. Como, novamente, bem registra o professor FHC, estudioso no assunto: “Ambos eram produtos, embora assimétricos, de uma mesma ordem (...) com o braço servil impulsionando os lucros do capitalismo mercantil, mas predestinada ao esgotamento. Os escravos não podiam construir a ordem social com seus próprios interesses”.

Uma das principais ruas de nossa Itaúna também se junta aos reflexos de como nossa terra carregou na gênese a segregação racial. A Rua Silva Jardim. Em 1889, na casa do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira a elite do que viria a ser a cidade de Itaúna criou uma reação combativa ao movimento abolicionista. Na verdade, eram antagonistas da Monarquia e exaltadores da República. Mas, este embate, como é de conhecimento amplo, teve grande motivação no fato de a Monarquia da Princesa Izabel proceder à abolição da escravatura. O grupo fundou o Clube Republicano 21 de abril. Fruto das andanças panfletárias de Silva Jardim, pelo território nacional. A iniciativa levou um dos membros da agremiação, o pai de meu bisavô, tenente Coronel Zacarias Ribeiro de Camargos, vereador representante de nosso então distrito de Sant’Ana na Câmara Municipal de Pará de Minas (do qual o território itaunense fazia parte), a aprovar o primeiro nome oficial para a principal rua do arraial.

O historiador Osmário Soares Nogueira, certa feita, relatou ao Dr. Guaracy de Castro Nogueira, que o próprio pai – Coronel Jove Soares Nogueira endossou que a revolta do Clube Republicano era motivada pela abolição. Questionado por Osmário sobre as consequências nefastas da perda da mão de obra, o coronel respondeu que nada de ruim se passou. “ As coisas até melhoraram, quando o mal é de todos não afeta ninguém”.
O sargento-mor Gabriel da Silva Pereira, fundador de nosso território municipal, e seu concunhado, co-fundador do município, Tomás Teixeira, foram pais, cada um, de dois filhos negros. Nogueiras, Gonçalves, Farias, Dornas, Corradis, Limas, Herculanos, Camargos, Machados e todas as demais famílias que fundaram nossa Itaúna são frutos de muitos casamentos entre preto e brancos. Curiosamente, contudo, nossos conterrâneos de traços afrodescendentes são, desproporcionalmente à população da cidade, minoria nas posições públicas, privadas, institucionais e políticas de Itaúna. Seja qual for o motor inconsciente deste fato, é a mesma mentalidade coletiva geradora dele que é simultaneamente prejudicada em seu amadurecimento. Deixamos de usufruir da competência, da dignidade e dos bons préstimos de muitos irmãos itaunenses por motivos que ninguém consegue explicar a contento. Pior: sobre os quais ninguém conversa, já que não há conflito evidente na harmonia perniciosa que nossa cultura estabeleceu. Esperamos contribuir para reavaliar isso.

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Última modificação em Quinta, 09 Julho 2020 17:09

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