Católicos ou não – fechar comércio no Corpus Christi é defender o progresso civilizacional de Itaúna

Por Publicado em:19/06/2020 | Atualizado em:09/07/2020 106

Fechar as portas comerciais em razão do dia de Corpus Christi fortalece a cidade que almejamos para nossas famílias – ainda que seja um ponto facultativo. Sejamos católicos ou não. O evento tem origem católica, mas suas consequências vão além da religião. Brasileiros que somos, nossa cultura, nossos óculos para ver o mundo, são amparados por valores provenientes da relação de cooperação entre a Igreja de São Pedro e o Estado Luso-Brasileiro. Nossa Educação, nosso desenvolvimento econômico, nossa base sociocultural e até o conceito de família, como o conhecemos, são frutos do catolicismo. Tudo isso enfraquece silenciosa e vagarosamente, quando se confrontam as bases inconscientes da mentalidade que move nossa sociedade. Tão mais fortes em um município do interior de Minas. Mesmo assim, para qualquer cidadão não católico que conteste, vale ainda relembrar o bom e velho respeito ao outro. Da mesma forma que um minuto de silêncio demonstra respeito à dor de um luto alheio, o respeito à interrupção de funcionamento comercial em um dia de feriado católico, demonstra deferência à crença da maior parte de nossos irmãos itaunenses.

Convido-o a se colocar no lugar de um funcionário católico assalariado, que se sentindo pressionado, não teve outra escolha, senão trabalhar normalmente no dia da celebração do Corpo de Cristo.
Jean Daniélou – cardeal francês, professor decano do Institut Catholique de Paris e respeitado pensador, próximo do Papa João XXIII – registrou que a religião cria o clima para a solução de problemas políticos e sociais. Ensinou que as realidades dessas questões fazem bem em reconhecer os valores cristãos. Em Itaúna, as bases da economia e da sociedade que conformou o munícipio de alta qualidade, alto IDH, atual, foram criadas pelas Companhia de Tecidos Santanense e pela Companhia Industrial Itaunense – berços da pujante sociedade que conhecemos. João de Cerqueira Lima, ao ensejo de fundar a Itaunense, nos exemplifica como os valores católicos participam ativamente da Itaúna próspera que dá guarida a nossas famílias. Segundo o historiador Guaracy de Castro Nogueira, em 4 de março de 1911, pouco antes da reunião sobre a fundação da empresa, o empresário redigiu seu voto de compromisso: “Coloco a Companhia sob a proteção de Maria Santíssima (...), que traga prosperidade a todos que cooperaram para o bem social. (...) Meu espírito vacila(...). [Mas, amparado por Ela, buscarei] a observância de todos os deveres para com os empregados (...), que se aplique alguma esmola em qualquer casa de caridade e meio por cento de minha renda para que Ela me inspire na prática do bem (...)”.

Na fé católica, a comemoração litúrgica do Corpo de Cristo se iniciou no ano de 1270 e ocorre sempre sessenta dias após a Páscoa. Celebra-se o mistério da Eucaristia. A doutrina oficial da Igreja Católica Romana segue o ensinamento de São Tomás de Aquino, segundo o qual – baseado na filosofia de Aristóteles, o pão e o vinho possuem características visíveis imutáveis a que ele chamou de “acidentes”. Mas, tem como essência aquilo que ele chamou de “substância”. Ela, durante a Eucaristia, se converte em corpo e sangue de Jesus.
Conforme nos ensina o festejado historiador mineiro, João Camilo de Oliveira Torres, em sua obra “História das Ideias Religiosas no Brasil”, diferente dos credos messiânicos – como o Judaísmo, o Catolicismo e suas crenças dissidentes cristãs são religiões de Salvação. São formas que procuram libertar o homem do mal e suas consequências não com base em razões e motivos temporais, mas, além da vida. Bem nos relembra o estudioso sobre como o povo vê no Cristo a imagem do irmão sofredor. O Cristo vivo, outrora tornado invisível pelas práticas tridentinas, passa a ser alcançável e especialmente próximo na quinta-feira de Corpus Christi.
O dia é muito especial religiosamente para a maioria dos itaunenses. Mas, também deveria ser para os não católicos. Em especial, aqueles que estão em posição de orientar, explicar e decidir sobre o fechamento ou abertura comercial da cidade.

Tito Lívio e Manuel Rodrigues Ferreira, em História da Civilização Brasileira, falam sobre o malogro da conversão católica intentada pelos jesuítas sobre os nativos brasileiros. Entretanto, em análise de João Camilo de Oliveira Torres, foram esses religiosos que estabeleceram o ensino hegemônico brasileiro, com formação humanística. Aquela arraigada na cultura “mineiresca”. Mais. Padre Manuel da Nóbrega ainda nos registra que esses mesmos jesuítas fizeram, combatendo, da ligação nascida da anarquia sexual brasileira, dos tempos coloniais, os casamentos cristãos que modelaram, também, a tradicional e respeitável família mineira.
Filantropia e benemerência também entram na lista dos valores espraiados pela Igreja Católica por meio de cada uma de suas datas, rituais e diretrizes. A geração de emprego e a produção econômica são frutos, em Itaúna, de uma cultura católica.

Na última quinta-feira de Corpus Christi, decidiram abrir as portas comerciais os seguintes estabelecimentos: Katuxa, Pernambucanas, Espaço Makeup, China, Hostel, Império das Capas, Líder Capas, Essencial, Luna, Moça Bonita, Face Cosméticos, Zema, Naka Mix, Guru Lanches, Natura, Baby Kids, Rock Z, Closet, Miss Make, Elegance, Princess Shoes, Delícia de Minas, Casa Peixoto, Âncora, Bruxelas, Mundo dos Doces, Pé Calçados, Atelier do Chocolate, Raquel Magalhães, Quel, Authentic, Toque Especial, Diva Vilela, Diamond, Real Discos, Casa do Fumo, Pet Gatô, Urban Style, Moda Feminina, Itaúna Importados, Luna, Sensual Moda Íntima, Simone Flores, Pimenta Rosa, Loja Coutinho, Acar Celular e Supermercados Rena.

É certo que torcemos para o sucesso de cada um deles. Itaúna ganha com suas prosperidades. Também, vale sempre buscar entender a motivação que os fez não se guardarem no santo dia. Talvez por se sentiram sufocados com a quarentena econômica do COVID19, talvez por não serem católicos e levantarem os argumentos de “A Ética Protestante e o Espírito Capitalista”, de Max Weber.

Seja como for, além dos valores católicos que devemos preservar e subconscientemente são os motores da Itaúna que cultivamos, fazer ao outro aquilo que gostaria que fizessem conosco é um dos ensinamentos pueris que são repetidos para além do catolicismo, mas nem sempre são completamente compreendidos. Mesmo por cristãos.

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Última modificação em Quinta, 09 Julho 2020 17:10

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil e como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.


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