Guaracy de Castro Nogueira e Padre Antônio Vieira: o legado de gigantes em Itaúna

Por Publicado em:25/06/2020 | Atualizado em:09/07/2020 88

Este texto é a reprodução da homenagem que prestei, na Câmara dos Vereadores de Itaúna, há quase quinze anos. Dia 23 de novembro de 2006, Dr. Guaracy de Castro Nogueira recebia o Diploma de Mérito Cultural dos representantes do povo itaunense.
No momento em que nossa cidade se une em torno de esforços sociais, culturais, educacionais, políticos e empresariais para atravessar um de seus momentos mais delicados, o registro que segue busca inspirar. E fazer justiça à memória de alguém que influenciou o destino e interagiu com a maioria das famílias do município. Senão todas. Seu legado tem que ver com a luta para fundar a Universidade de Itaúna, ao mesmo tempo que concedia bolsas de estudo a muitos alunos, filhos desta terra. Mas também está relacionado à geração de centenas de empregos na Companhia Industrial Itaunense. E na defesa política, filantrópica, social e empresarial de uma cidade pujante, que guardasse, em seus registros, a história genealógica de suas famílias e seus bem pesquisados fatos históricos.
Eis, enfim, a publicação da homenagem.

No famoso Sermão da Sexagésima, Padre Antônio Vieira faz uma diferenciação entre o semeador e aquele que semeia. Diz o escritor barroco que, embora a diferença fosse por vezes motivo de mal-entendido, ela existe. Está na efetividade com que alguém exerce algo a que se propôs. O renomado orador português descreve as circunstâncias ao homem que semeia: o estilo, a voz, a pessoa, a ciência e a matéria.
Dr. Guaracy de Castro Nogueira - ou simplesmente Vovô Guará - é parte da hereditariedade portuguesa da avó das terras itaunenses, segundo ele mesmo ensina; Dona Maria Joaquina do Pompéu. Um dos pilares para se entender como as Barrancas do São João se tornaram terra semeada de esplendor. Seu povo, cordial e guerreiro, é responsável pela Itaúna pujante, que hoje existe. O quadro dos homens que habilmente já fizeram crescer nossa terra enriqueceu-se com o Vovô Guaracy - pessoa iluminada que sempre semeou. Seguindo os ensinamentos de Padre Vieira, tornam-se claras as sementes que muito orgulhosamente identifico hoje com as mãos do Vovô Guará.

Se me questiono sobre a Circunstância da Pessoa que semeia, lembro-me frase de Vieira que diz: “O pregar que é falar faz-se com a mão”. Surge a imagem do vovô, que reconhecidamente dedicou sua vida a obras neste solo. Ações que vão da fundação da Universidade de Itaúna - pedra preciosa da cidade, a defensor da história de cada trabalhador na eterna Companhia Industrial Itaunense.

Se penso sobre a Circunstância do Estilo de quem semeia, a explicação do religioso vem no registro: “O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem”. Visualizo o vovô que semea amizades e trocas humanas genuínas. O mesmo que se senta comigo e com o pessoal que acabou de o ajudar a fazer uma obra no telhado e acompanha os causos com uma cervejinha. Aquele que se senta com os fiéis amigos Áureo e Alan para estudar sobre as raízes genealógicas. Ou com o memorável vice-presidente do Brasil, Aureliano Chaves, para promover nossa terra.
Se medito sobre a Circunstância da Matéria, surge uma metáfora proveniente do sermão: “Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. (...) Deste tronco hão de nascer diversos ramos (...) nascidos da mesma matéria”. Do mesmo modo que dizer Dr. Guaracy passou a ser sinônimo de mencionar alguém de profundo amor e dedicação à cidade de Itaúna, aprendi a perseverar em um projeto de vida apaixonante e entendê-lo como tronco de todos outros ramos de minha existência. Para o Vovô, a paixão é Itaúna. Para mim, a lição é essa.

Se raciocino sobre a Circunstância da Ciência, entendo-a na citação de Vieira: “Muitos semeadores, há, que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam”. Vejo o vovô, na foto que ele mesmo me mostrou, com uma cabaça nas costas, aos 15 anos, aprendendo a nadar. Percebo que o mito que admiro também suou nos processos de aprendizagem pessoal e respeito ainda mais a capacidade de ele encantar itaunenses e ensinar companheiros. Observo que por não nascerem da boca, as palavras dele não param nos ouvidos; mas por saírem do juízo, elas penetram e convencem o entendimento.

Se busco entender a Circunstância da Voz, o renomado pregador português me ensina: “Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando”. Percebo, assim, o reconhecimento de meu amado avô a brilhantes conterrâneos. E me lembro de sua constante busca pela dialética que o levou a respeitar, meditar, aprender e, sobretudo, admirar valorosos itaunenses. Pessoas que guardo na recordação, quando o escuto dizer: “aquele homem ali é sujeito formidável”, “aquela senhora, meu neto, é mulher extraordinária”. Admiro-o pela admiração dele.

Costumo dizer que, se pudesse, eu cederia alguns anos de minha vida para que a dele se alongasse por mais tempo ao lado da minha. Sei que é iluminado e, por isso, não é só a mim que ele faz um bem tremendo. Mas a muitos seres-humanos que têm a oportunidade de conviver com ele. Sei que é admirado e, por isso, não sou sozinho no rol de fãs que com ele aprendem. Mas, sobretudo, sei que é alguém muito especial, e que palavras nenhumas jamais conseguirão explicar ou expressar o amor que sinto pelo vovô Guaracy.

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Última modificação em Quinta, 09 Julho 2020 17:09

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil e como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.


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