Falta transparência, planejamento, civilidade e coragem

Por Publicado em:03/07/2020 | Atualizado em:29/11/-0001 158

Me foi pedido recentemente que informasse qual o planejamento minha cidade, estado ou país apresenta para enfrentar situações de crise, como no caso atual, da pandemia do novo coronavírus. A resposta foi rápida: não existe planejamento nem mesmo para o dia a dia administrativo, imaginem para o enfrentamento de uma crise. E aí, sem planejamento, se torna o que estamos vendo e vivendo. Para uma exemplificação mais localizada dos muitos problemas e poucas soluções apresentadas sobre esta situação da pandemia em particular, vamos ao que acompanhamos em Itaúna. Logo no início da pandemia o prefeito decretou o isolamento social, fez divulgação e explicou a necessidade das medidas para enfrentar a crise. Ótimo. O empresariado também adotou medidas, levantando as necessidades junto à direção do hospital e elaborando planejamento emergencial para arrecadação de fundos para que a situação fosse enfrentada, ampliando a condição de atendimento e, principalmente, implantando novos leitos específicos de CTI. No hospital também foram tomadas medidas de treinamento de funcionários, adequação de espaços, ampliação de serviços voltados para atendimento de urgência, dentre outras. A população aderiu e muita doação foi feita para o Hospital enfrentar o momento. Políticos com votos na cidade também surgiram em apoio, grandes indústrias doaram material, equipamento de proteção, dentre outros. Na comunidade, instituições passaram a oferecer amparo aos mais necessitados, como a Mães e Filhos, que vem servindo café, almoço, lanche, janta, para pessoas em situação de rua. Faltou, como sempre, a atuação do Legislativo, como instituição, apesar de iniciativas individuais de alguns edis. A cidade manteve, em março e abril, a situação bastante controlada, alcançando o menor número de casos confirmados da região, encerrando abril com 2 testes positivos. Maio também foi tranquilo, com mais 14 registros de testes positivos, quando Itaúna chegou a 16 casos de Covid-19 no último dia útil daquele mês. Até então, o município caminhou bem, com poucos casos, mas veio junho...

Aí as coisas começaram a sair do controle. Os casos têm aumentado de forma assustadora, na proporção de mais de 500% até a data da construção deste texto, último dia do mês. E os problemas, onde antes estava tudo bem, começaram a aparecer. Os casos foram se multiplicando, partindo dos 16 no fim do mês de maio para 98 no final deste mês de junho. Olhando para esse período com um pouco de crítica, podemos notar que faltou planejamento, falta transparência, falta civilidade e, finalmente, coragem. Coragem, explico, para ser transparente e dizer a verdade, que não tínhamos planejamento algum e agora precisamos “trocar o pneu com o carro andando”. De início, é preciso parar de recorrer a números comparativos, que só aumentam a certeza de que não se pensa no que precisa ser feito, mas vai-se fazendo conforme o “humor” do dia. Outro dia o prefeito falava que estava com a situação sob controle e comparou números de Itaúna com os de Minas e do Brasil: aqui, 16 casos por 100 mil habitantes; Minas tinha 45/100 mil e o País, 200, 300/100 mil, disse ele. Já ultrapassamos aqueles números de Minas e nos aproximamos dos números nacionais da época e é preciso perguntar: a situação está sob controle? E não me venham com a resposta de que aqui “ainda não morreu ninguém”, como me disse um cidadão. Vai esperar morrer alguém?

Estamos naquela fase – isso no Brasil todo – de abrir e fechar comércio, levando em consideração o número de contaminados. Se houver planejamento, o comércio pode funcionar e o isolamento social ser praticado. Com certeza, isolamento social não é deixar de trabalhar, é com certeza, evitar contato, deixar de se aglomerar, de fazer festa, de fazer “resenha” na esquina, deixar de “bater perna na rua” para ver vitrine. Havendo planejamento e civilidade por parte da comunidade, pode ser feito o isolamento sem que as pessoas deixem de trabalhar. Falta planejamento para organizar a vida da sociedade, e falta civilidade da nossa parte enquanto cidadãos e, por isso, vira essa bagunça que estamos vivenciando no Brasil e também aqui em Itaúna. E por fim, a falta da transparência cria situações de embates, com respostas enviesadas, como a que o hospital deu a uma cidadã quando a informação clara teria resolvido tudo sem atropelos. E com relação à população em geral, a transparência por parte dos órgãos públicos ou que atuam para o público ajuda no entendimento mais amplo da situação. É preciso que a transparência seja a principal ferramenta da comunicação, falando a verdade, esclarecendo a situação como ela é e não fazer a divulgação como se se tratasse de uma peça propagandística de cunho eleitoral. Mas para isso é necessário coragem... Sem planejamento para que as ações sejam organizadas dentro de um critério a ser seguido; sem civilidade por parte de nós, cidadãos, para entender que cada um tem a sua parte a cumprir; sem a transparência necessária para evitar a desconfiança; e sem a coragem para dizer e fazer o que é preciso, explicando o porquê delas, fica difícil e só nos resta escalar os rankings negativos que estamos encabeçando.

PS: Não poderia deixar de citar a atuação da Câmara Municipal de Itaúna neste período. Parece que não temos uma pandemia a ser enfrentada, na medida em que o que se discute no espaço do Legislativo são questões que nada ou quase nada têm a ver com a atual situação. Se houve algum momento em que a pandemia fez parte dos debates naquela casa, ocorreu por provocações externas, como quando comerciantes cobraram apoio às suas reivindicações, ou em questões de atendimento a posturas pessoais, como a de cobrar abertura dos templos religiosos para atender ao rebanho de um dos edis. Uma proposta de redução salarial ligada ao tema teve trâmite equivocado e mais pareceu se tratar de provocação entre grupos. No mais, a pandemia tem servido para reduzir a carga horária, quer seja de funcionamento do local, quer seja para o encurtamento dos encontros semanais (que às vezes são até suspensos), e para a realização das reuniões sem público o que, convenhamos, torna menos polêmicas e mais fáceis de serem conduzidos. Um projeto, uma ação, uma proposta sequer de participação no comitê decisório da rotina municipal ante a crise inexistem.


* Jornalista profissional, pós-graduado em gestão em produção gráfica
e especialista em comunicação

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Sérgio Cunha

Sérgio Cunha é jornalista profissional, pós-graduado em Gestão em Processo de Produção Gráfica, especialista em Marketing Político e Comunicação Pública e mestrando em Gestão e Auditoria Ambiental.


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