Andando por sobre as águas?

Por Publicado em:21/08/2020 | Atualizado em:26/08/2020 297

Trabalhava em Pirapora quando a saudade de casa bateu forte e, não tendo como voltar naquele dia, resolvi ir para um quiosque, armado no meio do Rio São Francisco, onde serviam um peixe delicioso e cerveja estupidamente gelada. Lá estava e alguns pescadores faziam ponto no local até o horário de saírem para a pescaria, algo em torno de 3, 4 horas da madrugada. Tomávamos cerveja, comíamos peixe e jogávamos conversa fora falando de generalidades, futebol, até que um dos presentes passou a contar “coisas fantásticas que aconteceram aqui nas margens do rio”. O papo interessou e, daí a pouco, todos estávamos em torno do senhor que narrava histórias quase inacreditáveis. Contou-nos sobre uma mulher que aparecia nas margens do rio procurando um rapaz. Perguntava às pessoas se o tinham visto, andava pra cima e pra baixo na procura. Só depois de muitos anos é que descobriram que ela e o filho haviam morrido em uma enchente. Esses e outros casos foram contados enquanto tomávamos cerveja e comíamos peixe.

Em certo momento, já meio embalado pelo álcool da cerveja, entendi que era hora de tomar uma cachacinha. Afinal, dentro de pouco tempo ia para o hotel, e dormir com tanto calor só mesmo depois de um porre. Pedi, então, uma cachaça. Foi servida. Tomei. Falando nisso, não sei se o caro leitor e a caríssima leitora sabem do calor que assola o Norte mineiro. Lá, em certos dias, pode-se frigir um ovo no asfalto, de tanto calor. E, para combater o efeito desse clima, só mesmo tomando muito líquido, receitam os nativos. E como cerveja e cachaça são líquidos, até porque se fosse sólido eu comia, bebíamos bastante.
Mais uma e outra mais, tomei cerca de 4, 5 cachaças. Entrávamos noite adentro, ouvindo histórias e bebendo. Em certo momento, o dono do quiosque anunciou: acabou a cachaça. Já estava quase pronto o caldo de peixe que os pescadores tomavam antes da lida e, “sem cachaça, não dá”. Perguntei se algum dos presentes saberia como conseguir o precioso líquido, apareceu-me à frente um homem muito magro, alto – cerca de 1,90 ou mais um pouco –, negro, cabelos lisos como os índios, sorriso triste e olhos colocados em uma cova, tão funda que assustava. Ele disse que traria a cachaça dentro de “uns dez, quinze minutos”. Eu, curioso, perguntei onde ele encontraria a mercadoria para adquirir e, secamente, respondeu: “No Buritizeiro”.

Ri, mas aquele riso largo, gostoso, demorado... Disse a ele que, se me trouxesse a pinga dentro de 20 minutos, eu pagaria a ele um dia de serviço. Duvidei, porque Buritizeiro fica do outro lado do rio, cerca de uns seiscentos metros de água, muita água. A única maneira de ir a Buritizeiro, não sendo atravessando o rio, em meio às corredeiras – de canoa seria muito difícil, ele chegaria à outra margem bem mais abaixo do ponto em que estávamos e teria que andar muito até atingir a cidade –, era passar pela ponte de metal, a “Marechal Hermes”, ou uns quinhentos metros acima desta, pela ponte de concreto. Mas o homem aceitou o desafio. Pegou o dinheiro e, na minha frente e de todos os presentes, caminhou por sobre as águas do Rio São Francisco, chegando rapidamente à outra margem. Dentro de, no máximo dez minutos, lá vinha ele, novamente caminhando por sobre as águas. Eu e alguns dos presentes, mudos, assistimos àquela demonstração de poder acima do humano. Outros pescadores olhavam, rindo do nosso espanto. Ele chegou, colocou a pinga em cima da mesa. Serviu-se de uma dose e me disse: “Moço, não precisa pagar meu dia de serviço, não. Eu gosto de servir aos amigos. Se precisar de mim, pode pedir de novo”. Afastou-se, caminhando em direção à canoa para dar início à pescaria. Eram quase três horas da madrugada. Eu não bebi mais, fui embora. Não dormi o resto da noite, sempre com a imagem do homem andando por sobre as águas.

No dia seguinte, voltei às margens do rio para conferir o acontecido na noite passada. Fiquei ali, admirado, olhando a outra margem e imaginando o que o homem tinha feito para atravessar o rio. Foi aí que vi um menino, rapazinho de uns treze, quatorze anos, vir correndo por sobre as águas, atravessando o rio. Acerquei-me dele e quis saber como ele fazia aquilo. “Foi meu pai que me ensinou o caminho, eu venho pisando nas pedras. Sei onde está cada uma delas...”. Voltei a sorrir. Tudo tão simples... Basta saber o caminho das pedras. E eu que quase jurara nunca mais beber...

* Jornalista profissional e contista (ou seria contador de histórias?) de ocasião.

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Última modificação em Quarta, 26 Agosto 2020 15:45

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Sérgio Cunha

Sérgio Cunha é jornalista profissional, pós-graduado em Gestão em Processo de Produção Gráfica, especialista em Marketing Político e Comunicação Pública e mestrando em Gestão e Auditoria Ambiental.


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