Alguns comentários sobre o artigo do Sr. Rafael Corradi Nogueira

Por Publicado em:05/02/2021 | Atualizado em:29/11/-0001 310

O ilustre articulista abordou a questão das vacinas (ciência) e tratamento precoce (crendice). Mistura ciência com crendice. Como só acredito na ciência e abomino as crendices, vesti a carapuça, mas apresento meus argumentos.
Um verdadeiro cientista não acredita em hipóteses. Ele tem que provar, na prática, através de experiências que podem ser repetidas milhares de vezes, em qualquer laboratório. Quando se faz isso está se fazendo ciência. Não pode ser comparado a idealizações ou paixões políticas. Quem faz isso não é cientista, é charlatão, bem como leigos, inocentes e vigaristas que, como o capitão presidente e sua trupe, agem nas redes sociais. Eu vou avisando logo que não pauto minhas ideias contrárias às do capitão genocida por detestá-lo. Modéstia à parte, não navego no pântano que ele e seus seguidores chafurdam!

Então vamos lá: o que é tratamento precoce? Primeiramente é bom esclarecer o que é um tratamento médico: o tratamento médico implica uma doença conhecida e medicamentos que a combatem. Por exemplo: uma pneumonia, causada por uma bactéria chamada pneumococo, é tratada com penicilina e outros antibióticos mais modernos para os quais ela é sensível. Não existe tratamento precoce de pneumonia, existe tratamento de pneumonia, está claro?

Agora, o que é tratamento precoce? Significa que farei um tratamento de uma doença que não sei qual é. Por exemplo: existem mais de 60 viroses que afetam o trato respiratório superior (adenoviroses, infecções bacterianas que iniciam com os mesmos sintomas: coriza, tosse seca, dor de cabeça e às vezes uma febrícola). A Covid-19 inicia de um modo geral com esses mesmos sintomas. Nos três primeiros dias é impossível no momento saber qual das viroses está produzindo tais sinais e sintomas e, portanto, não sabemos que tratamento realizar, a não ser usar o medicamento para os sintomas. Todo mundo sabe que um resfriado comum se cura com médico, sem médico e apesar de médico! É importante lembrar que 85% dos casos de Covid-19 são assintomáticos ou produzem sintomas leves, como a gripezinha do Bolsonaro. E é aí nesta fase inicial destas doenças que é prescrito o tal tratamento precoce! Isto não é tratamento, isto é dar uma droga para viroses para as quais elas não têm efeito. Como nestas viroses, inclusive a Covid-19, evoluem bem, os crédulos afirmam que o tal tratamento precoce curou o paciente. (Lembrar que em Manaus, nesta segunda onda, os médicos intensivistas informam que todos os pacientes que estão na UTI fizeram o tratamento precoce).

A cloroquina e a hidrocloroquina são remédios indicados para a malária, doença causada por um PROTOZOÁRIO e não por um vírus. Elas podem, sim, produzir efeitos colaterais (arritmias cardíacas em 4% dos casos) e poderão matar o paciente. A malária mata muito mais do que isso, por isso seu tratamento com estas drogas é válido. Se um paciente toma cloroquina sem indicação e tem arritmia e morre, ele foi assassinado por quem a prescreveu. Está claro?
Agora vamos comentar sobre as vacinas: há mais de duzentos anos a medicina emprega as vacinas para prevenir doenças. Elas estimulam nossas defesas naturais para combater doenças específicas, provadas exaustivamente na prática médica, durante anos e mais anos! Isto é ciência e não crendice! Não é paixão política, mas fatos verdadeiros e comprovados diuturnamente.

O que o articulista chama de vacina experimental são as novas vacinas que estão em experimentação. Toda droga ou vacina destinada a uso humano é meticulosamente testada em várias fases, e só são liberadas pelas agências de controle sanitário depois desses procedimentos. No Brasil a Anvisa é o órgão responsável por isto. No caso das vacinas anti-Covid-19, não está sendo diferente. Elas estão sendo testadas rigorosamente pelos laboratórios produtores e atualmente a tecnologia tem ajudado nesta tarefa. Todas as vacinas estão seguindo rigorosamente o protocolo de três fases e todas com resultados muito bons. A urgência, precipitada pela pandemia, é necessária e a ciência está dando conta do recado. Após a terceira fase é possível liberar para uso emergencial das vacinas, o que fez a Anvisa, por unanimidade, e ainda puxou as imensas orelhas do capitão ao afirmar que a vacinação é a única saída para a pandemia, pois não existe ainda tratamento para a Covid-19!
O uso das vacinas tem se mostrado bastante seguro e milhões de pessoas já foram vacinadas, e ninguém virou jacaré. Os riscos que estamos correndo com elas são muito menores que com a doença. Ninguém está sendo cobaia das vacinas contra a Covid-19. Vacina é coisa séria e não pode ser misturada com crendices.

Pergunto ao culto articulista onde ele leu, em inglês, francês, alemão, ou javanês, um trabalho sobre a cloroquina que procedeu às três fases de segurança para o tratamento da Covid-19. Pergunto sobre um trabalho sério, randomizado e duplo-cego e testado. Se me mostrar esse trabalho, lhe darei um kit para tratamento precoce da Covid-19! Aí você vai me dizer que a cloroquina é usada há 80 anos e está supertestada. Porém é para tratamento da malária, não de Covid-19, está claro? Se o douto articulista prefere tratamento precoce, boa sorte! E que ele não tome a vacina, deixando a sua dose para quem acredita na ciência. Ao contrário do que o articulista afirma, é o tratamento precoce que é crendice, necessita de fé.
O último parágrafo do seu artigo, desculpe-me os termos, é de uma estupidez e ignorância abissais, além de asqueroso. Você está caminhando em seara que não conhece e um bom conselho é, não ir além de suas sandálias. Isso é perigoso e tem consequências.

Nota 1 – Existem milhares de artigos, não trabalhos experimentais, especialmente nas redes sociais em todo o mundo defendendo o tal tratamento precoce. A ignorância e a burrice não são privilégios só de brasileiros. Também existem milhares de trabalhos experimentais, inclusive da OMS, condenando-o.
Nota 2 – Você poderia me esclarecer o que a Covid-19 tem a ver com a Zika? Pelamordedeus!!!!!!!!!!!!!!!

José Simonini Filho

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