A cultura itaunense

Por Publicado em:06/05/2022 | Atualizado em:29/11/-0001 231

O sentido da palavra “cultura” ampliou-se muito nas últimas décadas. Há um tempo atrás, cultura era como um atributo superior que separava classes sociais e distinguia alguns cidadãos. Hoje ainda reconhecemos pessoas cultas, mas o termo cultura se refere principalmente aos traços próprios de uma população ou de uma região. Nesse conjunto estão não apenas a produção artística, literária e musical eruditas, mas, com igual valor, as manifestações populares, aquelas que pertencem à tradição, as que são aprendidas pela herança ou inspiradas por algum dom natural.
Em Itaúna, o Reinado é uma tradição que faz parte da nossa cultura e por isso deve ser mantido vivo e prestigiado. Outros costumes, como as serenatas, já foram mais presentes na vida da cidade e podem ressurgir a qualquer tempo. Mas quem sabe da existência de grandes seresteiros, quem sabe dos grupos e dos seus casos pitorescos?
Certas joias culturais, se não forem preservadas, desaparecem. Cabe aos agentes que a população nomeia e paga salário, a responsabilidade de zelar pela memória: eles têm o dever de proteger a história da coletividade. Isso também vale para os membros do Conselho de Patrimônio, que não têm salário, mas ganham prestígio.
A recente polêmica sobre a demolição do Hotel Alvorada, na Praça da Estação, autorizada pelo Conselho de Patrimônio, mostra como estamos entregues ao acaso e ao amadorismo. Um projeto de arquitetura inteligente, poderia proporcionar o aproveitamento comercial do terreno e ao mesmo tempo manter a ambientação daquele que hoje é o nosso espaço histórico mais importante, o único razoavelmente preservado.
As fachadas de algumas construções são fortes ativadoras das nossas lembranças e deveriam ser mantidas, em muitos casos, a qualquer custo. Esse é um deles. Mas o Conselho é obtuso.
O poder público, contrário ao seu dever, tem sido imediatista. A quase totalidade do nosso patrimônio histórico virou pó. É o caso dos teatros. Demolimos todos que tivemos e, se não fosse a recente pesquisa do Dr. Marco Antônio Lara, essa parte espetacular da nossa história, esse nosso feito social extraordinário, teria desaparecido.
Os museus também estão nesta classe de realizações sociais. Sim, porque a sua existência é do interesse da sociedade, ainda que a iniciativa seja de um grupo minoritário. Aliás, certas coisas devem ser preservadas até mesmo contra a vontade popular, pois essa decisão é estratégica: não é sobre gosto, mas sobre relevância.
Itaúna possui um museu. Pequeno e com acervo frágil, é verdade, mas a sua existência é um chamamento à sua própria reanimação, é um convite à recuperação da vontade de registrar o nosso tempo para que os itaunenses do futuro entendam melhor a si mesmos.
Volta e meia temos notícias de bens que desapareceram do acervo do museu. Uma urna funerária indígena, livros manuscritos da administração do Dr. Augusto, uma máquina de escrever antiquíssima, a caricatura do João Dornas, feita pelo genial Di Cavalcanti, além de um bem cujo desaparecimento, se confirmado, será um fato trágico e escandaloso. Talvez não se possa encontrar os responsáveis, mas rogo para que eles queimem no inferno, pois um dos maiores crimes contra a sociedade é subtrair a sua memória.
Essa subtração pode ser material, como a das peças citadas, mas também pode ser de outra natureza: neste exato momento, a Secretaria, pasmem, de Cultura, está subtraindo da comunidade itaunense o seu museu inteiro!
Não dou notícias do acervo, que retirei do edifício arruinado e deixei limpo e catalogado quando saí do então departamento de cultura. Estou falando do sepultamento da própria existência e significado da instituição Museu Municipal Francisco Manoel Franco.
Pessoas sem a qualificação necessária, sem um mínimo de sensibilidade cultural e sem respeito pela história de Itaúna estão transformando o nosso precioso museu num buteco.
Os itaunenses não deveriam apoiar essa afronta. Como apontou a grande Hannah Arendt sobre as omissões dos alemães durante o nazismo, a desinformação não tira a responsabilidade de ninguém.

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Sérgio Machado

Arquiteto e  professor da Faculdade  de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna.