O museu morto: muito mais do que um problema de acervo

Por Publicado em:13/05/2022 | Atualizado em:29/11/-0001 186

Os museus são a radiografia de um povo. Logo, a maneira com que este mesmo povo dá importância a eles também é um retrato momentâneo dessa mesma gente. O grande problema do acervo retirado do Museu Francisco Manoel Franco reside na falta de importância que o cidadão itaunense, em média, dá ao lugar. E na incapacidade que os governos municipais desde 2008 tiveram de reverter isso. Analogia pertinente: a um prefeito não basta cuidar do paciente terminal. Ele precisa fazer uma operação em tempo recorde e sem chances de erro, se não quiser correr o risco de ficar com a culpa pela morte do enfermo. Mas isso não é desculpa: quando alguém assume um cargo público tem que ter consciência dos ossos do ofício. Neider, ainda à época em que Guto Aeraphe era seu primeiro gerente de Cultura, levou a necessidade de restauração do museu itaunense (fechado desde o governo anterior) ao Condempace. De lá para cá se vão mais de 5 anos. Será que 5 anos já não seriam suficientes para o problema estar resolvido? O resultado não é necessariamente uma história com vilões. Mas um povo capenga de um pilar cultural essencial e uma administração pública atravancada na própria mentalidade do povo itaunense – que, salvas raras exceções, não prioriza sua história cultural como deveria. A crítica também serve ao modelo ultrapassado de funcionamento do CODEMPACE (Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural, Artístico e Ecológico de Itaúna), que se reúne morosamente, e nem sempre, apenas uma vez por mês.

Por que nossa gente não subiu nas tamancas em favor do acervo do Museu Francisco Manoel Franco, há quase 15 anos, quando os primeiros sinais de sucateamento do espaço vieram a público junto com a transformação da praça da estação em um prostíbulo a céu aberto? Na edição 662 da Folha do Povo, de 20 de dezembro de 2008, foi estampada a foto do presépio do Humberto Salera “jogado às traças”. Há 14 anos nossa gente e nossas instituições não se mobilizam; um retrato atual surpreendente de descaso, ignorância e absoluta falta de respeito preservação da memória cultural de Itaúna. E não há desculpa esfarrapada que justifique deixar o paciente ficar em estado terminal para exigir sua pronta recuperação. O acervo do Museu Francisco Manoel Franco já não está plenamente e ininterruptamente à disposição do público desde 2008 – portanto não é apenas a atual administração que não conseguiu ainda colocá-lo de volta às mãos da população. O secretário Joe ou prefeito Neider não fogem do tema e o CODEMPACE tem vindo a público fazer seus protestos. Mas a verdade administração e Conselho tropeçam um no outro, quando se dependem mutuamente para avançar. Além disso catorze anos parecem ser tempo mais do que o suficiente para que um município se mobilize em torno disso e resolva a questão.

Por fim, museu e galeria de exposição são coisas diferentes. É assustador que muitos não demonstrem preocupação com a importância desta diferença. O museu que foi desmontado contribuía silenciosamente com o futuro de cada itaunense atingido pela geração socioeconômica proveniente da inspiração vinda dos traços empresariais e artísticos arrojados de nossos antepassados criadores dos teares da Santanense, da máquina de escrever dos primeiros jornais, do arrebatador presépio de papel de natais nada banais, do monjolo feito pelas mãos dos primeiros escultores deste povo chamado itaunense. Uma gente que não se situa apenas em um local no espaço na beira do Rio São João, mas que reside em um lugar no tempo às margens de um rio caudaloso onde correm histórias formadores da cara, do jeito e da cultura responsáveis pela visão de mundo que você, eu e todas outras famílias da cidade se inspiraram. Matar o museu, mesmo que temporariamente, é secar este rio. Fazer isso é deixar nossos bisnetos carentes da bagagem contida na curiosidade e na inspiração, que outras gerações levaram mais de século para construir. Ou você acha besteira saber das grandes histórias de nossa gente? Você consegue enxergar como itaunenses antigos serviram de modelo e inspiração para tanta ideia boa a atual que impactou na qualidade de vida de nossa gente atual? Se sim, você entende o valor da cultura e da curiosidade produtiva que uma peça de museu pode despertar em uma criança: seja esta criança um infante, um adulto ou um senhor.

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Rafael Corradi

Rafael Corradi Nogueira, filho de Itaúna, é cientista político pela UnB. Há 13 anos trabalha como executivo de Relações Governamentais e Institucionais nos Estados Unidos e no Brasil. E como analista político. Apaixonado pela língua, tem especialização em Língua Portuguesa e Certificado em Inglês Avançado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.