História da Barragem do Benfica- Parte II, por Guaracy de Castro Nogueira

Prosseguindo com a divulgação dos estudos do Vovó Guará, replico numa escrita mais poética, em homenagem a sensibilidade e visão de todos que fizeram a história, a segunda parte de seus registros sobre a Barragem do Benfica.
Na senda do tempo, onde as águas do São João se contavam em murmúrios, uma Companhia, valente em sua labuta, se erguia à sombra do passado. Eis a Companhia Industrial Itaunense. O diretor, José de Cerqueira Lima, como arauto do progresso, recebeu do prefeito Lima Coutinho a notícia, que soava como um sussurro: de que o Plano Diretor, quase despido de sonhos, tocaria o céu cinzento.
Assim, em agosto de mil novecentos e cinquenta, um engenheiro jovem, de nome Nelson Faria de Toledo, chegou como vertedouro, do seu lar em Itajubá, ergueu-se em voos de esperança, para auxiliar Rubens Vaz de Mello, o guardião do traço, no levantamento das terras que logo teriam a carícia da barragem.
A fazenda de Henrique Alves de Magalhães, herança do patriarca Benfica, foi adquirida, onde o concreto se abraçaria ao leito do rio, e entre as sombras da antiga história, nasceria a “Barragem do Benfica”, eterna homenagem ao pai das terras.
Mas as chuvas se afastaram, e a tempestade interna crescia, a crise energética rondava como sombra indesejada, enquanto o rio, antes cruzeiro de vida, se tornava triste manto, e a Itaunense, heroína de luz, tinha suas chamas reduzidas. Dos quatrocentas mil metros de pano, a falta de energia reduziu a produção a um quarto do que fora.
Os black-outs se tornaram os noturnos espectáculos, corta, escurece, e o Cine Rex parava suas histórias.
Mas a Companhia, atada aos contratos do destino, sofria a perda de força, assim como os limites impostos. Havia um clamor na bruma dos dias: como enfrentar a maré que subia? Ninguém sabia, mas a determinação pulsava. E assim, um novo engenheiro surgiu, José Conduru Pinto Marques. De Belém, jovem alma, trouxe consigo a esperança renascente. Casado, enlaçado em amor, encontrou em Maria Inês. Celebrando o saber e a construção de um futuro sutil, ele e Nelson Faria, os dois em uníssono, laboraram no terreno, com mãos firmes e corações abertos, em busca do horizonte. Atenderam ao chamado dos céus e das terras, por longos e árduos meses.
Assim, em um outubro de vidas e desafios, o levantamento prévio, com sobressaltos e sorrisos contidos, chegou ao final, não sem a marca das lutas, em solo líquido. E a história, tecida em cada gota de suor, em cada sonho antecipado, seguiria, como o rio, no vai e vem de esperanças e promessas.
Ano de mil novecentos e cinquenta e três, quando a esperança ressoava como canto sereno. Mas na lida das horas, o dr. Conduru, como um pássaro que voa breve entre os cansaços, estendeu sua dedicação em intensos dez meses. Enquanto o dr. Nelson, incansável lavrador de sonhos, permaneceu em afã de amor à terra e ao progresso. Dois anos e nove meses, a alma mesclada ao solo. Até que, em um outubro que tingia a paisagem, Conduru entregou as finas tramas da obra nas mãos de Zezé Lima, cerrando sua missão com um ato solene.
Os dias passaram como o correr das águas, cinco décadas se foram, e claro se obscureceu o passado, semelhante a um sonhar distante, uma memória nebulosa, a gravidade daquela falta de energia, que em Itaúna, uma vez insondável e gritante, pairava, nos âmbitos da década de cinquenta, escrita em sombra.
No afã de salvar a cidade do escuro abissal, Zezé Lima, qual estrategista da luz, fez-se às compras de geradores robustos, desenhados na urgência e na esperança, importados, movidos a óleo, como um mastro de vida, ergueram-se onde hoje jaz o monumento do cinqüentenário, pulsações de metal a fazer ecoar a cena.
Quando o rio secava e as turbinas silenciavam, entravam em ação os geradores bradando, e o rugido metálico invadia a brisa da vizinhança, como um desafio à sanidade na velha fábrica. Enquanto a Itaunense, guerreira sem par, enfrentava uma crise que nunca se viu semelhante. As queixas subiam, numa sinfonia de descontentamento, rugidos de desespero, clamores em descompasso.
A cidade, em transe, vivia a tensão, um cenário de desafios na dança do destino, e assim, a história se desdobrava, entre geradores e a lâmpada da memória. Em busca do novo, renascendo das cinzas. Em meio ao som dos motores e o eco profundo. Do breve e esmagador desconforto de que é preciso para se acender a vida.
Visão, sonho, persistência e resiliência: a esperança é útil, quando ela deixa de fazer sentido, já nos ensinava Chesterton.